Trump sonha com um estado totalitário, um Big Brother do século XXI. Foto: Reprodução

Na distopia trumpista em que vivemos, a mentira e a dissonância cognitiva pontificam enquanto a autocracia segue erguendo muros e semeando guerras. 

Por Aldenor Junior

4 de abril de 1984. Esta é a data de abertura do diário de Winston Smith, o personagem central do romance distópico “1984”, de George Orwell. Imerso em uma atmosfera opressiva, ele buscou brechas para fugir do rígido controle totalitário. O enredo se passa num futuro mais ou menos datado, algo como quatro décadas após o fim da Segunda Grande Guerra, em uma Londres (“a principal cidade da Faixa Aérea Um, a terceira mais populosa das províncias da Oceania”) que não havia se livrado dos escombros e das feridas abertas pelo enorme morticínio do conflito armado contra Hitler. Mas, como se sabe, Orwell tinha seus olhos firmados nos riscos da derrocada dos regimes democráticos e na ascensão de novos totalitarismos, pouco importando se inspirados pelas sementes envenenadas do nazismo ou do stalinismo.

Em cada prédio, pediam enormes cartazes, com a imagem do ditador (“rosto enorme, com mais de um metro de largura: o retrato de um homem de aproximadamente 45 anos, com um bigode preto grosso e belos traços marcantes”) e sua legenda ameaçadora: O GRANDE IRMÃO ESTÁ VIGIANDO VOCÊ. Não importa para onde você se mexa, sempre haverá um “olho” capaz de captar seus movimentos e, muito além disso, penetrar em tudo o que pensa. É a teletela, dispositivo presente em todos os lares e locais de trabalho, e que não tinham como ser desligados, captando imagem e som 24 horas. Havia a Polícia do Pensamento para impor a nova ordem, nada, absolutamente nada, escapando de seu controle.

Winston trabalhava no Ministério da Verdade (Miniver, em Novidioma), órgão responsável pelas notícias, diversão, educação e arte. Na fachada do grande prédio piramidal que lhe servia de sede, podia-se ler os três lemas do Partido:

GUERRA É PAZ

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO

IGNORÂNCIA É FORÇA

Diariamente, às 11 da manhã, todos os funcionários do ministério se reuniam para os Dois Minutos de Ódio, exibidos na grande teletela. Era a doutrinação em estado puro e peça-chave na disseminação da narrativa dominante, que não admitia o mais leve sinal de dúvida ou contestação.

8 de setembro de 2025, mundo “real”, em qualquer parte do mundo. Um Grande Irmão onipresente, armado e perigoso, tudo vigia e repete o mantra: “Estou vigiando você”. Seu face revela um homem branco, idoso e de cabelos alaranjados. Seu Miniver acaba de decretar que o Departamento de Defesa da nação mais bélica do planeta agora voltará a ser o Ministério da Guerra, depois de mais de sete décadas. A justificativa é simplória: “Defesa é muito defensivo (sic), e queremos ser ofensivos”, disse o presidente Trump. Cai o pano, que a bizarrice já não consegue arrancar risos. É coisa muito séria.

Donald Trump quer demonstrar força, expor arrogância e vitaminar um perfil bélico que parece ser o último sustentáculo daquela que foi outrora a maior potência do globo, mas que caminha a passos largos para ser suplantada pela China nas próximas décadas. Contra essa tendência, nenhuma verborragia fará efeito.

As investidas do trumpismo na releitura da história não se esgota nesse gesto simbólico e algo inócuo de renomear o Pentágono. Nesses poucos meses de segundo mandato, são diversas as investidas para controlar e interferir na autonomia das universidades, dos museus e demais instituições científicas. Sob pretexto de combater as políticas de inclusão e de respeito à equidade de gênero, a Casa Branca lançou uma verdadeira cruzada obscurantista, tentando impor uma Polícia do Pensamento para emular sua base de apoio mais extremista, os tais membros da MAGA (sigla do movimento Faça a América Grande Novamente, em inglês).

Ainda em plena campanha presidencial, em outubro do ano passado, Trump cometeu a infâmia de denominar o 6 de janeiro de 2021, data da invasão do Capitólio por milhares de seus apoiadores e que causou cinco mortes e mais de 140 policiais feridos, de “Dia do Amor”, em mais uma demonstração do quanto ele é adepto do Novidioma. Empossado, ele não titubeou em indultar os envolvidos nessa intentona de extrema-direita. Assim, buscar a ignorância pela força, sem nenhum vestígio de remorso em seu permanente trabalho de demolição, por dentro, dos fundamentos da democracia estadunidense.

Em tempos de discurso de ódio e de dissonância cognitiva resultantes da manipulação das redes sociais e de demais aplicativos da Internet, sob o poder oculto e nada neutro dos algoritmos, supor que o mundo caminha para um sistema totalitário não é ficção ou exagero. Algo precisa ser feito para impedir que cidadãos que jamais obtiveram um único voto se tornem “imperadores mundiais” e possam inculcar sua ideologia que, como é de domínio público, bebe na fonte envenenada do nazismo e do fascismo. A esses senhores – Mark Zuckerberg (Meta), Sundar Pichai (Google), Tim Cook (Apple), Jeff Bezos (Amazon), Shou Zi Chew (TikTok) e Sam Altman (Open AI) – que estavam na primeira fila durante a posse de Trump, em 20 de janeiro, em Washington, soma-se o mais histriônico deles, Elon Musk, homem mais rico do planeta, que à época ainda posava de primeiro-amigo de Trump (hoje estão rompidos, mas esta é outra história).

Derrotar (regular, submeter ao Estado de Direito) esses Cinco Cavaleiros do Apocalipse, e todos os seus representantes na esfera política, é condição para que a verdadeira linguagem da justiça, liberdade e fraternidade possa prevalecer, em um mundo que não pode abdicar a luta pela plena felicidade humana.

Deixe um comentário