Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Por Aldenor Junior

O Comando Vermelho (CV) é uma organização criminosa, assassina e que espalha o terror nas comunidades.

Sua prática se baseia na aplicação de leis próprias, um sistema de “justiça” paralelo e implacável, tudo para afirmar seu pretenso controle sobre territórios densamente povoados por homens e mulheres que já não suportam viver sob esse regime de negação de direitos elementares.

Por isso mesmo é que o CV pode e deve ser desmantelado e todas as seus múltiplos delitos extirpados da vida cotidiana da população brasileira (há muito que essa facção deixou de ser um problema carioca).

Mas, que tudo isso precisa ser feito dentro da lei e não contra ela.

Quem não pode ser uma organização criminosa, assassina e que espalha o terror é o Estado.

Quem não pode criar um sistema de “justiça” paralelo é o Estado.

Afinal, quem outorgou às tropas das polícias do fascistóide Cláudio Castro a prerrogativa de ser um tribunal de exceção, que prende, julga e executa suspeitos, mesmo diante da eventual resistência armada que oponham à operação das forças (supostamente) da ordem?

Nessa contabilidade macabra, a conta simplesmente não fecha.

Na autointitulada Operação Contenção, foram presas mais de 80 pessoas, mortas outras 117 suspeitas de integrarem o CV, além dos quatro profissionais da segurança pública que infelizmente morreram em serviço (eles próprios vítimas de uma ação mal planejada e executada sem considerar o enorme risco de produzir baixas fatais entre os servidores públicos e a população civil). Porém, foram apreendidas apenas uma centena de armas. Ou seja: muitos dos presos e dos mortos não deveriam estar portando armas. Teriam se rendido antes de serem presos ou mortos? Há armas extraviadas ou (que ninguém faça cara de espanto) devolvidas ao mundo do crime?

Cercados pelo muro de contenção do BOPE – uma tropa de elite conhecida por sua letalidade -, no topo do morro, é muito provável que após algum combate, muitos integrantes do CV tenham optado pela rendição. Teria sido aí que a chacina se operou, com uma sequência de execuções sumárias.

Segundo relato de testemunhas, muitos corpos exibiam sinais de tortura. Houve decapitações e desmembramentos. Um ritual macabro foi executado com armas e munições pagas pelo contribuinte do estado do Rio de Janeiro.

Mais de 48 horas após o massacre, as autoridades fluminenses sequer divulgaram a lista dos mortos. A perícia técnica que precisava ser independente e imparcial ocorre sob muitas suspeitas. É o teatro da impunidade que se organiza aos olhos de uma sociedade bestializada.

Em meio à exploração midiática que esconde o fundamental – essa política de invasão das comunidades e de produção de chacinas cada vez maiores e mais sangrentas é um reiterado fracasso – nada parece mudar de verdade. No dia seguinte, o CV não está mais fraco, até porque seu coração e seu cérebro foram convenientemente preservados. Seu poderio econômico e seu comando não foram afetados. Assim, enxuga-se gelo e o crime em pouco tempo reporá as fileiras, ainda mais violentas e disposta ao tudo ou nada.

Em nome de tantas vidas perdidas, que o Brasil não perca a oportunidade de avançar numa verdadeira política de combate ao crime, sem populismos e que tenha como mira a desarticulação completa das facções criminosas ligadas ao tráfico de drogas e também aquelas que fazem do Estado verdadeiras milícias assassinas.

*Aldenor Junior é jornalista.

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