Foto: Divulgação/Banco Master
Dessa vez, os alvos foram familiares do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e dois tubarões do mercado, envolvidos no maior escândalo financeiro da história. Como se não bastasse, eclodiu uma tretagem pública entre o ministro Toffoli, do STF, e a Polícia Federal, sem que o público seja informado das razões de tanto nervosismo.
Por Aldenor Junior
Às vezes, parece uma gigantesca comédia de erros. Em outras, pela extrema gravidade do tema, suscita a desconfiança de que nada acontece por acaso quando, por obra e graça do destino, os alvos de uma operação policial são diletos membros da chamada elite brasileira, essa casta que nos governa desde o século XVI preservando um misto de brutalidade e desfaçatez que deveria causar escândalo, mas parece estar perfeitamente integrada à paisagem nacional.
Eis que, ontem, 14, a Polícia Federal amanheceu batendo na porta de um seleto grupo de plutocratas, essa gente que acumula patrimônio na casa dos muitos bilhões. Era a segunda fase da rumorosa Operação Compliance, que objetiva investigar as malfeitorias envolvendo o liquidado Banco Master, do ex-banqueiro ostentação, Daniel Vorcaro.
Duas questões atiçaram ainda mais a polêmica em torno deste caso que polariza a atenção da opinião pública – e tira o sono de parcelas do estamento político e financeiro – desde novembro do ano passado.
Primeiro, que além dos familiares de Vorcaro, caíram nas malhas da PF dois senhores muito conhecidos no mercado financeiro e no cassino de aquisições de ativos (mais ou menos podres) que movimenta quantias estratosféricas. Trata-se de Nelson Tanure e João Carlos Mansur, acusados de participação em parte substantiva das operações suspeitas do Banco Master.
Essa pode ser a ponta de um novelo que descortinará um cenário de terror para muita gente graúda (Ciro Nogueira e Antônio Rueda, cardeais da Orcrim conhecida como Centrão, já não dormem direito há meses).
Em segundo lugar, estourou uma tretagem inédita (e pouco explicada) entre o ministro Dias Toffoli, responsável pelo caso no STF, e a Polícia Federal, com o pito público passado por ele diante do que chamou de descumprimento dos prazos estabelecidos para as medidas policiais nesta segunda fase.
E, para piorar, determinou que todas as provas fossem imediatamente recolhidas no próprio prédio do STF, em Brasília, passando por cima das atribuições da polícia judiciária e colocando em risco a própria coleta de evidências (como se sabe, é possível deletar remotamente arquivos guardados em celulares, notebooks e em nuvens de dados).
Ao final do dia, após intensa polêmica, Toffoli recuou (mais uma vez), acolhendo pedido da Procuradoria Geral da República (PGR), que acabou como destinatária de todos os materiais apreendidos.
Trapalhadas em série
A polêmica envolvendo Toffoli começou desde muito cedo e tem atraído olhares cada vez mais desconfiados diante das decisões que denotam improviso e, não raro, nervosismo.
Afinal, por que esse caso teve de subir ao STF? O pedido partiu da defesa de Vorcaro, alegando que entre os tomadores de empréstimo junto ao Master estava o deputado José Carlos Barcelar, do PL da Bahia. Ora, são mais de 1,5 milhão de correntistas e investidores e não seria surpresa que muitos parlamentares, empresários, jornalistas, pastores e bispos possam estar entre eles.
Ao aceitar esse argumento no mínimo duvidoso, Tofolli trouxe para si um enorme problema, que só se agravou depois da revelação pela imprensa de muitos laços existentes entre seus familiares com fundos ligados (direta ou indiretamente) ao Master.
Agora, surgiu essa determinação de acautelar provas diretamente no STF ou mesmo na PGR, quando em todas as demais operações cabe à PF a guarda e análise dos materiais apreendidos. Dar um tratamento tão especial aos celulares de Vorcaro e dos demais implicados no escândalo não se justifica, pelo menos pela ótica do interesse público.
Fica a dica: se for investigar o Master, dobre a dosagem de seu ansiolítico.
Para a plateia nacional resta o desejo que se dissipem as cortinas de fumaça e que toda a trama possa ser revelada, com os devidos nomes, sobrenomes e responsabilidades por esse escândalo. As dezenas de bilhões que descerão pelo ralo da liquidação do Master fazem tanta falta para os que amanhecem sem ter segurança de que terão pelo menos um prato de comida para aplacar a fome de sua prole.
*Aldenor Junior é jornalista








