Servidores da assistência social em greve realizaram manifestação no Ver-o-Peso, nesta segunda-feira (26). Foto: Sintsuas Funpapa

Em meio à greve dos trabalhadores da Fundação Papa João XXIII (FUNPAPA), perfis alinhados à gestão de Igor Normando (MDB) passaram a difundir a narrativa de que haveria “supersalários” na assistência social de Belém. A estratégia, baseada em recortes distorcidos da folha de pagamento, tenta jogar a opinião pública contra servidores que, em muitos casos, acumulam 20, 30 ou até mais anos de carreira no serviço público.

A análise da folha de pagamento da FUNPAPA referente a novembro de 2025, no entanto, desmonta essa versão. Os dados oficiais mostram que não há supersalários entre os cargos da assistência social. As remunerações mais altas decorrem de progressão funcional, adicionais legais e tempo de serviço, mecanismos previstos em lei e comuns a qualquer carreira pública estruturada.

Nos cargos de Educador Social, Educador de Rua, Psicólogo e Motorista, as médias salariais estão muito distantes de qualquer parâmetro que caracterize remuneração excessiva. No caso dos motoristas, usados como principal exemplo pela gestão, a média salarial gira em torno de R$ 7.800 a R$ 8.800, com valores mais altos concentrados em servidores antigos, que ingressaram no serviço público nas décadas de 1990 e 2000.

Ainda assim, um caso isolado, divulgado de forma sensacionalista, passou a ser explorado para sugerir que um motorista da FUNPAPA receberia mais de R$ 12 mil mensais. A informação foi duramente contestada pelo Sindicato dos trabalhadores e das trabalhadoras da Assistência Social (SINTSUAS), que classificou a divulgação como falsa, não checada e eticamente irresponsável.

Segundo o sindicato, a publicação distorce dados do Portal da Transparência, ignora rubricas legais e induz a população ao erro, especialmente em um momento de mobilização legítima da categoria. “A irresponsabilidade dessa divulgação evidencia uma prática que fere a ética jornalística e serve apenas para atacar injustamente os trabalhadores e trabalhadoras do serviço público”, afirma a nota.

A escolha do cargo de motorista como alvo da narrativa revela um segundo nível de ataque: a desqualificação de uma função essencial e sensível dentro do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Diferentemente da imagem simplificada que se tenta vender, motoristas da assistência social não exercem apenas a tarefa de conduzir veículos.

Eles atuam na linha de frente do atendimento a populações em situação de extrema vulnerabilidade, sendo responsáveis pelo transporte de crianças e adolescentes em medida protetiva, mulheres vítimas de violência, idosos, pessoas com deficiência e população em situação de rua. Trata-se de um trabalho que envolve segurança, sigilo, equilíbrio emocional e responsabilidade direta sobre vidas humanas.

Além disso, esses profissionais lidam com informações sensíveis, como rotas de abrigos e dados pessoais de usuários, cujo vazamento pode colocar pessoas em risco. Em situações de crise, surtos ou conflitos, cabe ao motorista manter a calma, garantir a integridade física dos passageiros e zelar pela proteção social.

É justamente esse caráter sensível que está ameaçado pelas mudanças propostas pela gestão. Segundo o servidor Rubenilson Melo, motorista de um abrigo em Belém, a reclassificação de complexidade pode resultar em perdas profundas. “Sou motorista e posso perder até 50% da minha remuneração com a reclassificação, que nos retira direitos como o DAI e o adicional noturno. Estão atropelando a nossa remuneração e desvalorizando o nosso trabalho”, afirmou.

Ao rotular como “supersalário” uma remuneração de R$ 10 mil ou R$ 12 mil paga a um servidor com décadas de serviço, a gestão ignora deliberadamente que esse valor não é privilégio, mas resultado de uma carreira construída ao longo do tempo. Mais grave: tenta transformar trabalhadores essenciais em vilões, desviando o foco do debate central, que é o desmonte de direitos, a precarização do sistema de assistência social e a retirada de garantias históricas da categoria.

A greve dos servidores da FUNPAPA não é por salários exorbitantes, mas por valorização profissional, respeito às carreiras e condições dignas de trabalho. Usar desinformação como ferramenta política para deslegitimar essa luta aprofunda o ataque ao próprio sistema de proteção social e mostra a falta de compromisso com a melhoria dos serviços prestados á população.

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