Diante de irregularidades flagradas há meses pelos auditores sem que a Prefeitura tomasse providências, os pagamentos à obra foram suspensos. Foto: Reprodução
Por Aldenor Junior
Poderia ser apenas mais um ato de um político dado a fanfarronices e a produzir cenas pseudocômicas para o consumo das redes sociais. Mas, agora, surgem elementos para qualificar a performance do prefeito Igor Normando (MDB) na última sexta-feira, 6, diante do caos gerado pela interdição da avenida Júlio César, como a mais explícita revelação de um governo inepto e irresponsável.
Diante do risco de desabamento de uma passarela que integra as obras de construção do Parque São Joaquim, o prefeito encenou um drama no qual toda responsabilidade foi jogada sobre os ombros da gestão anterior, algo que já se tornou um mantra frente a todo e qualquer problema que precise explicar.
Da mesma forma e com idêntica virulência, o dublê de prefeito desancou o consórcio liderado pela Construbase, regularmente contratado para executar o projeto, prometendo que enquanto estivesse no cargo essas empresas não fariam mais nenhuma obra no município. Puro agá, como se diz. Esse tipo de medida – tornar uma empresa inidônea – exige um processo de apuração, com a garantia do contraditório e a comprovação de dolo ou de grave negligência ou imperícia. Não basta a vontade imperial de quem esteja sentado na cadeira de prefeito.
Por outro lado, não é preciso ser especialista para enxergar problemas na execução dos serviços e que é injustificável que uma simples passarela apresente erros flagrantes em sua montagem, provavelmente decorrentes de falhas de projeto e de execução. Diante disso, a responsabilidade das empresas parece estar escancarada, mas não explica tudo o que está acontecendo.
O que Igor não disse e que faz toda a diferença é que parte substantiva da responsabilidade pelo incidente cabe à sua própria gestão, que falhou escancaradamente em sua obrigação de acompanhar e fiscalizar a obra. Isso é mais relevante quando se sabe de que a tal passarela já vinha apresentando problemas há meses, desde que foi montada no final de outubro de 2025 e registrou acidentes com carretas por conta da altura do vão estar subdimensionada.
Pior ainda: fiscalização técnica realizada há meses por técnicos do TCM flagraram falhas da execução das obras, inclusive nos pilares de sustentação das passarelas. Estas vistorias aconteceram em novembro do ano passado e, de novo, em janeiro deste ano – tudo sendo comunicado à Prefeitura para que os problemas fossem sanados e as apurações de eventuais responsabilidades da empresa também ocorressem em nome da preservação dos recursos públicos investidos no projeto.
Confrontado com a repetição dos gestos de incúria, restou apenas a opção ao conselheiro César Colares, relator do caso no TCM, de proibir qualquer pagamento ao consórcio construtor até que a equipe municipal demonstre que adotou todas as medidas que foram determinadas e inexplicavelmente não cumpridas.
Gestor fantasma
Alheio ao trabalho cotidiano da prefeitura, já que a principal função de Igor é funcionar como garoto-propaganda no TikTok para fazer campanha antecipada para Hana Gassan e demais integrantes clã Barbalho, o prefeito não tomou qualquer providência diante dos alertas do TCM, dando chance para o azar. E, como não se pode brincar de governar, deu no que deu.
O vexame ganhou dimensões oceânicas, e de nada adianta fingir falar grosso com empreiteiros e nem repisar o desgastado discurso que terceiriza responsabilidades.
Não custa lembrar para os desavisados que a construção do Parque São Joaquim é uma das obras da COP, financiada com recursos da Itaipu Binacional, com investimentos de R$ 150 milhões.
O projeto de requalificação do rio urbano São Joaquim foi fruto de um concurso arquitetônico nacional e expressa um conceito inovador e amazônico que supera o clichê de canalização de canais e de impermeabilização do solo, tão comum nas demais intervenções urbanas do passado e do presente na capital. Tanto a concepção como a captação de recursos e regular licitação do projeto ocorreram durante a gestão de Edmilson Rodrigues (PSOL), mas as obras propriamente ditas foram realizadas ao longo de 2025, portanto sob o comando e responsabilidade do primo do governador.
A conclusão óbvia é que uma obra estratégica para a cidade e que vai beneficiar diretamente milhares de famílias do Barreiro e da Sacramenta está ameaçada pela incompetência e falta de compromisso por parte de um gestor que não reúne as mínimas condições para o exercício do cargo.
Que o TCM e o Ministério Público Federal estejam atentos. Só a partir de uma forte pressão externa vai se impedir a total paralisação desta obra e a esterilização de recursos tão duramente conquistados.
Aldenor Junior é jornalista.








