A estranha história que liga propinodutos dos dois grupos que estão em guerra na política paraense – Foto: Ponto de Pauta/gerada por IA
Por Aldenor Junior
O cidadão se diz empresário de sucesso. Mas, olhando de perto, ele está mais para um exímio plantador de “laranjas” em escala industrial. Felipe Linhares Paes, este é o nome do sujeito. É pouco provável que sua trajetória, digamos, empresarial, tivesse despertado maior interesse até que, na segunda-feira, 16, ele transitou diretamente para o noticiário policial ao ser detido em uma operação da PF de combate à corrupção e lavagem de dinheiro.
Tudo aconteceu na saída de uma agência do Banco do Brasil, no centro da capital paraense. Diante da investida de uma equipe de policiais federais, que investigavam uma ocorrência de retirada suspeita de R$ 500 mil, Felipe, que se encontrava em um Land Rover blindado aguardando o comparsa que fora ao caixa apanhar o dinheiro, sacou uma pistola automática ensaiando resistir à bala. Por pouco, muito pouco, o faroeste se instalaria de vez, colocando em risco a vida de policiais, clientes e dos próprios suspeitos.
Para um (suposto) empresário, dono de fato de uma miríade de prestadoras de serviço a órgãos públicos, ele revelou traços típicos de membros de facções criminosas. E não terá sido mera coincidência, como se verá após o novelo de falcatruas ser levemente puxado e trazido à luz do dia.
Máquina de lavar mais branco
Em resumo: a prisão revelou que Felipe Paes como operador de um esquema (nem um pouco sofisticado, diga-se) que estaria sangrando os cofres da Fundação Cultural do Pará (FCP) em, pelo menos, R$ 3,8 milhões, através da empresa Solucione, contratada sem licitação. O saque de R$ 500 mil seria entregue a outro personagem que também acabou preso na mesma ocasião, Michel Silva Ribeiro, genro do deputado federal Raimundo Santos (PSD) e – outra coincidência – assessor lotado na Casa Civil do governador Helder Barbalho (MDB). Óbvio que, no dia seguinte, sem maiores cerimônias, foi exonerado a fim de distanciar as chamas do escândalo do colo do chefe do Executivo paraense.
Nos dias seguintes, vazou a existência de uma planilha da propina, apreendida com Michel Ribeiro, envolvendo nominalmente mais três deputados federais, além de Raimundo Santos, todos da base do governador : Henderson Pinto, Olival Marques e Keniston Braga, filiados ao MDB (de novo, sem espaço para coincidências).
Apesar dos indícios gritando por providências, o governador continua agindo como se os fatos tivessem ocorrido em Marte e não em um órgão de sua administração direta. Até agora, nem sinal de exonerar Thiago Miranda, atual presidente da FCP e, em primeira instância, responsável legal pelo descalabro milionário que foi revelado pela ação da PF. Atenção: ação da PF e não de nenhum órgão de controle interno ou mesmo dos sempre ágeis e operosos promotores do MPE, ocupados demais em investigar as malfeitorias do inimigo figadal do governador de Helder, o prefeito de Ananindeua Daniel Santos (PSB).
Para lançar mais uma pitada no mundo das coincidências, vale lembrar que Thiago Miranda é filho do ex-prefeito de Marabá, Tião Miranda, e foi candidato a deputado estadual em 2022, tendo ficado na suplência. Ganha um doce de bacuri quem adivinhar o partido do jovem político? Não dá outra: MDB, o mesmíssimo de 9 em cada 10 envolvidos no escândalo da FCP.
Separados na maternidade
O que está ruim sempre pode piorar. Sabe-se através de matéria assinada por Ana Célia Pinheiro, na edição de domingo , 21, do Diário do Pará, que o Ministério Público Estadual denunciou o notório Felipe Paes como integrante de uma organização criminosa acusada de desviar, pelo menos, R$ 15 milhões de verbas da educação de Ananindeua, através de uma das empresas de seu extenso “laranjal”. De novo, estranha coincidência: o mesmo operador trabalhando para os dois grupos políticos que tentam a todo custo se mostrar como antagônicos na política paraense.
No caso envolvendo (pela enésima vez) Daniel Santos, surgem fatos curiosos vinculando um assessor do prefeito com as empresas atribuídas a Felipe Paes. Um certo Joedson Assunção Ribeiro, lotado na Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) é esposo de Juliana Guimarães Barros Ribeiro, pretensa proprietária da empresa Royal Comércio e Serviços, suspeita do desvio milionário. Mas, não para por aí: estaria em nome de Joedson o Land Rover (blindado) envolvido na ocorrência policial dos desvios na FCP. Eita, mundo pequeno!
Poderia se dizer que vivemos numa cidade minúscula quando se navega nas profundezas da bandalheira institucionalizada. E que o capital (e a ganância pelo lucro fácil e instantâneo) não possui bandeira. Tudo bem, mas essas revelações podem igualmente dizer outra coisa: em um estado onde campeia a corrupção sistêmica, os operadores de uns e de outros acabam se cruzando nos caminhos do crime. Simples, assim. Os antagônicos de hoje foram aliados de primeira hora no passado recente. Como faces da mesma moeda, compartilham de esquemas nebulosos e, sem qualquer constrangimento, partem para a guerra aberta em trincheiras eleitorais. Seriam gêmeos univitelinos que não conseguem disfarçar sua estranha semelhança?
Triste, Pará, pelo menos enquanto se mantiver refém de uma política degradada por grupos que professam verdades apenas – e tão somente – quando se acusam mutuamente.
As eleições de outubro estão logo ali. Pesquisas de ocasião tentarão comprovar que não existe vida fora desse ringue de pretensos gigantes (de pés de barro, veremos).
O futuro não pode repetir o passado como um museu de grandes novidades, já nos ensinava o imortal Cazuza. Ainda existe tempo para abandonar esse pôquer de cartas viciadas.
Aldenor Junior é jornalista








