Ronaldo Caiado, com um passado de tantos crimes, tentará vestir o modelito de “direita moderada” e de “terceira via” entre Lula e Flávio Bolsonaro. Será mais um bate-pau a serviço da extrema-direita?. Foto Lula Marques/ Agência Brasil.
Por Aldenor Junior
Ronaldo Caiado, governador goiano e virtual presidenciável pelo PSD, não deveria enganar a mais ninguém. Sua extensa folha corrida de serviços prestados ao latifúndio e à direita (em seus mais distintos matizes) já é suficiente para atestar que este cidadão jamais cumprirá um papel de moderação ou de alternativa de centro (seja lá o for isso no contexto brasileiro) entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Todavia, parece que é este o papel que lhe restou após a repentina desistência de Ratinho Junior (um político de direita com um apelido desses não pode reclamar de ser, desde logo, uma piada pronta). Acossado pela filiação do trânsfuga Sérgio Moro no PL, sob as bênçãos da famiglia Bolsonaro, o governador paranaense bateu em retirada. Sua prioridade passou a ser cobrir a retaguarda, impedindo que Moro vença a eleição para o governo do estado. Briga feia entre vertentes do mesmo campo político, isto é, nesse amplo espaço entre correntes da extrema-direita, umas mais assumidas que as outras, mas todas comungando do mesmo ideário fascistizante.
Mas, quem é Ronaldo Caiado? Não se trata de um neófito, de certo. Seu nome e sobrenome estão ligados à organização sindical e criminal (não há qualquer oposição entre esses dois termos) dos chamados ruralistas, modernização daquilo que sempre foi denominado como latifundiários, coronéis de barranco, senhores de gados e de gentes. Nos anos 1980, enquanto o Brasil lutava para se ver livre do regime militar, Caiado ajudou a fundar e liderar a União Democrática Ruralista, a famigerada UDR. Daí para alçar postos políticos foi um salto e lá se vão mais de quatro décadas.
Rastro de sangue
Pará, 11 de junho de 1987. O ex-deputado, militante comunista e advogado de posseiros e de pequenos lavradores, Paulo Fonteles, era assassinado com três tiros na cabeça. O contratante do atentado mortal e covarde foi identificado como James Vita Lopes, figura com amplo trânsito na UDR, aliás, a mesma organização que mandara executar, em 1980, Raimundo Ferreira Lima, o “Gringo”, à época candidato à presidência do Sindicato de Trabalhadores Rurais (STR) de Conceição do Araguaia, e nos anos seguintes ordenou a eliminação de vários outros líderes camponeses daquela região, entre eles, João Canuto de Oliveira, Belchior e Expedito Ribeiro de Souza.
Em todos esses crimes estão plasmadas as digitais da UDR e de seu líder, Ronaldo Caiado. Uma figura como essas tentar vestir um modelito de moderação é piada de muito mal gosto.
Em 1989, na primeira eleição presidencial pós-ditadura, Caiado foi um dos 22 candidatos. Seu papel nos debates foi o de agredir Lula, da forma mais torpe possível. Alguém imagina que na eleição de outubro ele terá um papel diferente? Claro que não.
A direita de hoje consegue ser mais descarada e infame do que naqueles tempos em que a mobilização popular com a multitudinária campanha pelas Diretas Já havia abreviado o fim do regime de 64. Hoje, os ruralistas se orgulham de serem “modernos” empresários do agronegócio . Este mesmo agronegócio que nas telas da Rede Globo se apresenta como “pop”. “tech” e, ironicamente, como “tudo”, numa tentativa de se naturalizar como parte incontornável da desigual e violenta sociedade brasileira. Mas, olhando com um pouco mais de senso crítico, é fácil perceber o que se esconde por baixo dessa versão ideologizada.
Basta atentar para o acordo ilegal e imoral que Caiado firmou com a gestão Trump para dar acesso a empresas estadunidenses às gigantescas reservas de terras raras existentes em Goiás. Óbvio que um governador não pode usurpar as competências privativas da União. Além de um gesto explícito de sabujice, o que interessa é espalhar a confusão e confundir parcelas radicalizadas do eleitorado.
Para a grande maioria do povo brasileiro, as eleições de outubro serão de vida ou morte, e isso não é exagero retórico. Derrotar o conjunto da direita e assegurar a continuidade do projeto liderado pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva virou o único caminho para se evitar a barbárie. Como ensinava o escritor Primo Levi, sobrevivente do holocausto nazista, lembrando um antigo filósofo judeu, “Se eu não estiver por mim, quem estará por mim? Se não for assim, como? E se não for agora, quando?”.
No aqui e agora, sem espaço para vacilação, cabe ir à luta e não descansar até que o último ovo da serpente seja esmagado. Nas ruas e nas urnas.
Aldenor Junior é jornalista.








