É a segunda pesquisa em poucos dias que tem seus números impugnados pela Justiça Eleitoral. O jogo sujo está apenas no início. Foto: Bruno Cruz/Ag Pará

Por Aldenor Junior

Costuma-se dizer que o papel aceita tudo. O mesmo vale para um certo tipo de pesquisa eleitoral que se deixa manipular a peso de ouro, claro.

De tão absurdos, os números divulgados deveriam de pronto provocar desconfiança. Entretanto, divulgar números grosseiramente manipulados e depois se submeter ao pagamento de uma multa pouco significativa, pode valer a pena, até porque o suborno recebido tende a ser amplamente compensatório.

Esse parece ser o caso da última pesquisa AtlasIntel divulgados na manhã de ontem (20) sobre a corrida eleitoral no Pará. No final do dia, porém, veio a decisão cautelar da juíza auxiliar Marielma Tavares suspendendo a divulgação dos resultados, impondo a multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento.

A medida judicial é como colocar tranca em porta arrombada. O que importa mesmo é a geração do factoide para justificar as manchetes e a ampla divulgação do fakenews pelas redes sociais.

A medida corretiva determinada pelo TRE chega sempre atrasada, quando o estrago já está feito. Crime quase perfeito não fosse a realidade que mais adiante desmascarará a falsificação dos números da disputa.

Pois bem, a Atlas Intel, segundo fontes do mercado que preferem o anomimato, teria contrato firmado com a área de comunicação do governo do Pará. Há meses, portanto, realiza pesquisas pela internet para aferir a imagem da gestão Helder -Hana e o grau de aceitação dos diversos programas governamentais. Em paralelo, o mesmo instituto faz uma enquete eleitoral, supostamente custeada por R$ 60 mil oriundos dos cofres da Federação das Associações Comerciais do Pará (Faciapa) , alcançando resultados em absoluta discrepância aos que outras empresas têm encontrado.

Não por mera coincidência, esses números atendem aos interesses da campanha da governadora Hana Ghassan (MDB), que precisa desesperadamente criar o clima de que lidera a corrida e que pode, inclusive, fechar a fatura em primeiro turno, algo muito improvável, pelo menos diante das atuais condições da disputa.

É aí que entram em cena os números fantásticos da AtlasIntel. Mesmo proibidos pela Justiça Eleitoral, serviram para alimentar a máquina de propaganda da candidata do Clã Barbalho. Quem tiver dúvidas basta consultar a manchete de capa do Diário do Pará, nesta sexta (21): “Pesquisa AtlasIntel – Hana pode vencer no 1o turno. Helder lidera para o Senado”.

Cadê os indecisos?

Não é preciso uma auditoria nos resultados da AtlasIntel para se descobrir as digitais da maracutaia. Basta atentar para os inacreditáveis 5,3% de indecisos, quando todas as enquetes realizadas até agora dão conta de um manancial de mais de 25% de eleitores que ainda não decidiram seu voto. Ora, só aí, mexendo nesse indicador, quem for mal intencionado consegue espaço para distorcer todo o resultado e fazer disparar as intenções de quem tenha comparecido por primeiro junto ao caixa da empresa, que alega ter feito a enquete utilizando da “melhor técnica”.

Na vida real, as eleições do Pará estão em aberto. O estágio atual de relativo equilibro entre os dois principais concorrentes pode ser alterado, quando ambos tiverem suas contradições e falácias discursivas devidamente sabatinadas e expostas. Em uma palavra, agora que o jogo começará a ser efetivamente jogado. É só terminará quando o último voto for computado, na noite de 4 de outubro.

A democracia brasileira, com todas as suas contradições, necessita impor regras mais eficazes no controle da manipulação de pesquisas eleitorais. É isso, ou prevalecerá o império da prepotência e do abuso do poder econômico.

Aldenor Junior é jornalista.

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