Lula disse, em entrevista, que a qualidade dos políticos de hoje é pior: acham que podem ser candidatos por causa da internet. Foto: Ricardo Stuckert

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou, em entrevista exclusiva à TV Record, neste domingo, 23, as restrições da classe política brasileira ao longo das últimas décadas e o uso nefasto da internet na disputa eleitoral para tentar manipular ou falsificar dados e informações. Lula citou como exemplo as mensagens recorrentes de oponentes sobre os preços dos alimentos em supermercados – estratégia que tem sido usada pela extrema direita e Flávio Bolsonaro (PL) de forma recorrente nas últimas semanas para tentar destruir o Governo Lula.

Enquanto no governo passado, em quatro anos, a inflação teve média de 6,2%, a nossa é de 4,5% (a menor inflação média de uma gestão presidencial desde 1989). A inflação de alimentos, no governo passado, chegou nos quatro anos a 56%. menor. Quatro vezes menor”, ​​destacou Lula.

O presidente recomendou que seus adversários, em vez de irem aos supermercados “fazerem pirotecnia”, que acompanhassem os dados e índices oficiais de inflação, o IPCA, que mostrassem qual é o verdadeiro cenário econômico atual em comparação com a gestão passada de Jair Bolsonaro.

Qualidade dos políticos

Político mais experiente do Brasil, Lula admitiu ter saudade de rivais do passado, e lamentou o nível atual do quadro político brasileiro. Lula disse ter saudades de quando disputou a Presidência com pessoas como Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Mário Covas, Aureliano Chaves, Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, e tantos outros políticos que marcaram a história brasileira.

“Tem gente que acha que pode ser candidato por causa da internet. Que lacrar na internet dá a ele direito a ser presidente da República. Ser presidente é diferente, é decisões tomar. Tomar decisões é uma coisa séria, não é brincadeira”, afirmou o presidente.

Sem citar nomes de adversários, Lula disse que “diminuiu a importância dos políticos que disputam a eleição”, e que qualquer um acha que pode ser candidato por causa da internet. “O nível da política caiu muito”, disse, reforçando que se as pessoas não gostam de política, podem ser governadas por representantes perversos.

Educação financeira é fundamental

Lula citou dados da economia, que são positivos, mas admitiu que há questões que aumentam o endividamento das famílias, como novos hábitos de consumo, os juros altos e a ausência de educação financeira, que faz com que os brasileiros comprometam o seu orçamento além da renda.

“Os números são exitosos. Nós temos uma menor inflação acumulada em 4 anos, nós temos aumento do salário mínimo real em todos os anos, eles passaram sete anos sem fazer. Agora, por que a sensação de estar caro? Está caro porque mudou o nosso hábito de comer, porque os juros são caros e porque a gente está comprando mais coisas, utilizando mais coisas. Por isso que eu acho que nós vamos ter que criar um programa de governo, uma coisa chamada de educação de economia popular.”

O presidente lembrou que o desemprego, sob Bolsonaro, chegou a quase 8%, enquanto que em sua gestão foi de 5% – o menor índice da série histórica. “Eles geraram 6 milhões de empregos. Nós geramos 10,6 milhões (considerando vagas com carteira assinada e no setor público). O crescimento econômico: o deles foi de 1,4%. O nosso, em três anos, cresceu próximo de 3%. O dobro deles.”

Ninguém está impune se cometer erro

Lula foi questionado em inquéritos da Polícia Federal sobre seu filho Fábio Luiz e reforçou sua postura de defesa das investigações e autonomia da PF e do Judiciário.

“Ninguém está impune se cometer erro. Eu digo para qualquer pessoa: todos somos obrigados a agir corretamente. Se alguém for educado de forma equivocada, de forma errada, vai ter que ser investigado. E eu não sou um presidente que tenta proibir investigação. Eu não ameaço mandar ministro embora. Eu não ameaço punir delegado. Investiga-se”, comparou.

Lula ponderou que em toda eleição seu filho é alvo de boatos e disse que os vazamentos das investigações ocorrem para provocar desgaste na disputa eleitoral. “Todo mundo tem o direito de provar que é inocente. Se isso acontecer, as pessoas serão perdoadas. Mas se alguém cometer o erro, e esse erro trouxe prejuízo aos cofres públicos, essas pessoas terão que pagar”, enfatizou o presidente.

“Nós temos que tomar cuidado. Ou seja, quando começa a vazar, e você sabe que sou vítima disso desde 1989, você não pode perder o equilíbrio”.

Segurança e feminicídio

O presidente disse que sempre nas eleições os políticos invoca a tese de que “bandido bom é bandido morto”, mas ressaltou que sua experiência de três mandatos e sua trajetória o fazem enxergar mais profundamente a realidade da segurança pública.

O que é que fizemos na Constituição de 88? Tiramos um certo controle que tinha Federal, porque a política planejada, e os Estados queriam, e nós envolvemos toda a responsabilidade para os Estados. A União tem um pouco a ver com a segurança pública na medida em que transferimos a responsabilidade para o estado. Eu agora quero criar o Ministério da Segurança Pública. Por que eu não criei no começo? Porque eu não tinha o que fazer se eu criasse sem mudar a Constituição”, explicou.

Lula disse que assim que aprovar uma PEC da Segurança Pública será preciso convencer a massa da Fazenda a destinar recursos para um trabalho alinhado e integrado entre Governo Federal, estados e prefeituras.

“Então o que a gente quer fazer é o seguinte, a gente quer devolver o território da periferia e da cidade para o povo. Ele é o dono do território. E aí o bandido vai ocupar seu espaço na cadeia.”

O presidente voltou a falar da importância do Pacto Brasil contra o Feminicídio, que envolve os Três Poderes, e fez um apelo aos homens: “Faço um apelo às pessoas de bem, aos homens de bem, aos homens que tratam as mulheres de bem. Converse com os seus amigos que são brutos, que são ignorantes, que acham que a mulher é escrava dele, para ele parar, sabe, de fazer bobagem e cuidar bem da família”.

Lula destacou, ainda, a importância do processo educacional para levar a conscientização de crianças e adolescentes, e coibir a cultura do machismo e da violência.

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