Reportagem de Alice Maciel e Paulo Motoryn mostra que Lídia Mazelli figura em negócios imobiliários, de aviação e apostas ligados a Willer Tomaz, alvo da Operação Sem Desconto; ela disse trabalhar como doméstica e afirmou desconhecer as empresas. Foto: Reprodução
Uma mulher que trabalhou no escritório do advogado Willer Tomaz, amigo próximo do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), passou a figurar formalmente como dirigente de 14 empresas ligadas ao advogado, algumas delas responsáveis por negócios milionários nos setores imobiliário, de aviação e apostas. A revelação é de reportagem de Alice Maciel e Paulo Motoryn, publicada pelo Núcleo Investigativo do ICL Notícias em parceria com a newsletter Noites Húngaras.
Lídia Maria Figueiredo Mazelli, de 61 anos, teve vínculo formal com o escritório Willer Tomaz Advogados entre março de 2019 e setembro de 2020. Quatro dias depois do fim do contrato de trabalho, segundo os documentos consultados pela reportagem, ela já aparecia como dirigente da Jet Line Locação e Serviços Aéreos e, no mesmo período, assumiu a direção da WT Administração de Imóveis e Bens. Posteriormente, seu nome apareceu em empresas de comunicação, mineração, investimentos, imóveis, aviação e meios de pagamento.
O ICL localizou Lídia no Riacho Fundo, no Distrito Federal. Abordada pelos jornalistas, ela afirmou trabalhar como empregada doméstica, negou conhecer Willer Tomaz e disse não saber que aparecia como dirigente das empresas. A reportagem afirma ter confirmado sua identidade por meio de documentos e outros registros.
Willer inicialmente afirmou que a mulher localizada pelos repórteres não seria a administradora de suas empresas. Após ser confrontada com os elementos reunidos pela reportagem, sua assessoria reconheceu que se tratava de Lídia e disse que ela teria ficado assustada com a abordagem. O advogado afirmou que Lídia é formada em Administração há mais de 20 anos e possui experiência em cargos de gestão. Segundo o ICL, a assessoria não apresentou, até a publicação, comprovação da formação solicitada pelos jornalistas.
Mansão, ilha e empresa de apostas
Entre os negócios nos quais Lídia aparece formalmente estão uma empresa envolvida na disputa por uma mansão estimada em R$ 10 milhões em Angra dos Reis e outra responsável por uma ilha particular que chegou a ser anunciada por R$ 17 milhões. Em 2023, ela assumiu a presidência da Friponor Brasil Turismo, ligada à Ilha do José André, e posteriormente assinou consulta ao órgão ambiental do Rio de Janeiro sobre a possibilidade de construção de empreendimento turístico no local.
Lídia também integrou a administração da Pixs Cobrança e Serviços em Tecnologia, atual RioPag, contratada pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) para processar depósitos, pagamentos e saques das casas de apostas credenciadas pelo governo estadual. O contrato tinha valor estimado em R$ 32 milhões por cinco anos. A Loterj posteriormente acusou a RioPag de não repassar R$ 20,9 milhões ao estado, segundo a reportagem.
Willer é alvo da Operação Sem Desconto
Willer Tomaz foi alvo, em agosto, da Operação Sem Desconto, investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas ao esquema de descontos fraudulentos contra aposentados e pensionistas do INSS. O advogado afirma que não é investigado por desvios de aposentados e cita manifestação da Procuradoria-Geral da República contrária à diligência realizada contra ele.
A relação entre Tomaz e Flávio Bolsonaro é pública. Em 2021, durante a CPI da Covid, o então senador se referiu a ele como “meu amigo Willer Tomaz”. Segundo informações reunidas pelo ICL, os dois também mantiveram contatos pessoais e profissionais ao longo dos anos seguintes.
Tomaz emprestou recentemente dois imóveis utilizados por Flávio: uma casa em Angra dos Reis, onde ocorreu o aniversário da filha do senador, e um apartamento em São Paulo usado durante a campanha presidencial. O ICL registra ainda que imóveis relacionados a esses episódios apresentam conexões empresariais com Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master.
A reportagem também recupera outros pontos já revelados sobre a rede de relações. A empresa Bravo Grafeno, da qual Flávio é sócio, divide endereço em Brasília com pelo menos 16 empresas ligadas a Antonio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, e utiliza o mesmo escritório de contabilidade, segundo apuração anterior do ICL.
Flávio Bolsonaro foi procurado pelos autores da reportagem e não respondeu até a publicação. Willer Tomaz nega manter sociedade ou negócios em comum com o senador e também contesta afirmações que relacionam Flávio à aquisição de imóveis de suas empresas.
Com informações de Alice Maciel e Paulo Motoryn, do Núcleo Investigativo do ICL Notícias, em parceria com a newsletter Noites Húngaras.








