Revelações das tenebrosas transações de Flávio Bolsonaro remetem ao escândalo Collor-PC Farias. Fotos: Collor- Crédito: Palácio do Planalto/Divulgação; Flávio Bolsonaro – Crédito: Edilson Rodrigues/Agencia Senado

Por Aldenor Junior

A frase é de Karl Marx e já tem quase 180 anos: “A tradição de todas as gerações passadas é como um pesadelo que comprime o cérebro dos vivos”. É neste famoso trecho que Marx cunhou a expressão segundo a qual os grandes fatos da história se repetem “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa” (O 18 de Brumário de Luís Bonaparte).

Nestes dias turbulentos, o Brasil respira, angustiado, momentos que parecem confirmar as predições do velho revolucionário alemão. A quatro dias do segundo turno — o mais disputado em toda a trajetória da débil democracia brasileira pós-ditadura militar — o país flerta perigosamente com o abismo.

Flávio Bolsonaro e seu enredo de falcatruas bilionárias — isso mesmo, é de bilhões que se fala — repete, como farsa grotesca, a tragédia da ascensão de Fernando Collor de Mello, o presidente civil eleito na primeira eleição direta pós-ditadura, em 1989.

Naquela época, para derrotar a esquerda, que tinha em Lula o seu maior expoente, valeu tudo, inclusive a unidade do andar de cima em torno de um arrivista, que logo se demonstrou um larápio em escala gigantesca.

Como Collor, Flávio repete o enredo trazendo do submundo do crime o seu “PC”, o notório advogado Willer Thomaz, versão millennium do antigo tesoureiro de campanha forjado nas bandalheiras em Alagoas.

Sob a falaciosa bandeira da luta anticorrupção, o país corre o risco de eleger um criminoso contumaz, envolvido até a medula com o crime organizado em todas as suas mais variadas manifestações — da milícia que domina territórios, passando pelas facções do tráfico de drogas e pela alta pilantragem das bets e da Faria Lima.

Tudo isso, claro, com um grau de sofisticação muito maior do que no passado: hoje vivemos na época da financeirização exacerbada e de um estágio da acumulação capitalista plataformizada, sob a liderança do velho conhecido complexo industrial-militar, agora incrementado pelas big techs que emulam sua dimensão dataficada. Ou seja, o novo Collor emerge num mundo que gira para a extrema-direita numa versão ainda mais agressiva, perigosa e deletéria.

O destino bate à porta

Que Flávio é um cidadão desqualificado e moralmente abjeto, todos já deveriam saber. Que ele conseguiu galvanizar quase todo o andar de cima e levar de roldão uma enorme parcela do povo brasileiro (matizado por múltiplas e intrigantes contradições), também não pode ser motivo de surpresa.

O que produz angústia é perceber que a montanha de indícios do caráter criminoso desse personagem não parece fazer qualquer efeito para quase — na melhor das hipóteses — metade do eleitorado.

O segundo turno está logo ali, dobrando a esquina.

No meio do caminho, haverá de existir pedras que ergam a barricada definitiva. Esse muro de contenção responde pelo nome de mobilização social, dotada de volume e potência como nunca se viu.

Reside aí a esperança da virada nas urnas, seja por qual margem for.

A ninguém será concedido o direito à ingenuidade: não se trata de uma eleição, apenas. O destino de um país e de sua sobrevivência como nação soberana estará em jogo.

Nessas poucas horas, como em todas as batalhas decisivas, cada gesto vale a pena.

O povo brasileiro tem dado provas eloquentes de que não faltará ao chamado de salvação nacional, cuja síntese se expressará na digitação de dois números capazes de reverter o curso da tragédia anunciada: 13, para que o país possa respirar aliviado, sob o comando de Luiz Inácio Lula da Silva, que inaugurará seu quarto e último mandato, tão somente para que se possa entrar de cabeça nas cruentas e definitivas batalhas que se avizinham.

Aldenor Junior é jornalista.

LEAVE A REPLY