Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Por Luiz Arnaldo Campos

Ontem foi o dia em que escorreram diante dos nossos olhos imagens de um sentimento indescritível. Nas ruas e nas telas, indígenas, crianças, trabalhadoras, gente comum indo dar seu voto com a alegria de quem faz o certo, o justo, o verdadeiro.

De todas as que mais me impressionaram foram a dos mais antigos e antigas indo votar. Com uma elegância assombrosa nas suas cadeiras de rodas, com suas muletas, amparados por seus parentes, belas e belos sorrindo, cabelos penteados, felizes como quem vai para uma festa.

Representam o trabalho de muitas décadas realizado por inúmeras gerações e sua simples presença atesta como foi fecunda esta semeadura.

Porque apesar desta vitória apaixonante seguimos imersos numa guerra de valores, onde a crise do neoliberalismo, ferido de morte abriu uma Caixa de Pandora que vomitou sobre o mundo um distopia onde solidariedade é coisa para tolos, o individualismo e a competição são requisitos fundamentais para a vida em sociedade, a desigualdade é natural, a arrogância é apanágio dos fortes e a ignorância um bem a ser buscado.

Ao mesmo tempo que aravam o solo com a propagação do anticomunismo e a demonização da luta social semeavam este joio nefasto, alçando tipos desprezíveis como os ícones de uma nova humanidade.

Tudo isto foi muito forte, se alimentou de muita frustração e foi turbinado com muito dinheiro. Não percebemos, não acreditamos ou não conseguimos entender como a valorização do estupro, a exaltação da tortura, o racismo, o culto à violência, o desprezo para com as mulheres ganhavam tanta força na sociedade a ponto de suas fauces escancaradas ameaçarem nos devorar no primeiro turno.

Foi então que o despertar de uma legião de jovens fez a terra tremer. Sua inquietação não respeitou convenções, comités ou antigos procedimentos, moveu-se com liberdade e autonomia a proclamar que não aceitaria a iniquidade como modo de vida. Encontrou acolhida.

Seu percurso não era inédito. Antes, muita gente regara o solo com seu sangue para propagar a liberdade, a defender um mundo de justiça e igualdade. Ouvindo a trombeta dos jovens estas palavras reviveram da terra e se tornaram lanças e escudos.

Numa campanha memorável, retirando energias do ar, homens e mulheres de todas as idades se apresentaram para barrar o inimigo que avançava certo do poder de suas armas- das big techs aos porta-aviões- E ali, ao pé das nossas muralhas foi irremediavelmente batido.

Uma vitória histórica que salvou não só nosso país mas um continente inteiro. Meu amigo mexicano Edur Velasco, com o exagero dos poetas, a chamou de a vitória popular mais importante desde Stalingrado.

Por isto me encantou as imagens dos nossos veteranos indo votar. Mais do que ninguém eles sabem o que está em jogo. São velhos que possuem uma antiga sabedoria. Sabem fazer o dia raiar.

Luiz Arnaldo Campos é Cineasta e militante do PSOL

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