É pau, é pedra, é o fim do caminho

Josenias Silva [Fazendo Media]

Tem momentos em que me sinto um grande Zé mané, um otário, um trouxa, alguém que caiu no “conto do vigário”. Fico assim quando penso na Profissão que escolhi, repito Profissão, sou Professor Profissional desde 2008. Neste quarto ano que se completa de meu exercício magisterial já falo como um desiludido, como alguém acometido pelo realismo, já não espero mais o admirável mundo novo prometido na minha graduação, não me percebo mais como o herói que vai salvar o futuro, ou mesmo transformar a realidade do país. Sou apenas um Professor, como tantos outros que trabalham para sobreviver e nutrem uma pontinha de satisfação quando conseguem ajudar alguém.

Escrevo isso não porque pretendo abandonar o magistério ou virar a casaca, afinal “está no sangue”, como dizem. Mas porque tenho o direito de me revoltar, de expelir aquilo que me faz mal, de ser solidário com quem, assim como eu, escolheu esta Profissão. Escrevo isso para revoltar alguém, para fazer barulho, para ser um incomodo, para reagir ao absurdo que é ser Professor no Brasil. Não vou falar de teorias ou teóricos, está provado que não deram certo, não vou falar de metas, não vou falar de planos ou números (deixo isso para quem tem tempo a perder). Vou falar de choque, de greve, de tapa na cara, de porrada, de humilhação, covardia e imoralidade. Vou falar do que vi hoje (30) muito cedo na TV, mas do que já venho assistindo há vários anos, desde quando ainda era aluno do Fundamental, que é o “modus tratandi” a que está submetido o Professor brasileiro.

Não é saudosismo, mas já se foi o tempo em que o Mestre exerceu alguma influência, em que o Professor era alguém admirado pelo saber que carregava, pelo exemplo de empenho e dedicação às causas nobres, em que o seu ofício era tido como algo imprescindível para o futuro do país, e porque não, da humanidade. Já se foi o tempo em que o Professor podia se orgulhar de ser Professor, que podia dizer que era tão útil quanto o médico ou advogado sem ter a sensação de que está sendo enganado, ou pior, mentindo para si mesmo. Já se foi o tempo da esperança e o da espera. Agora é o tempo do cassetete, do pau, da pedra, do fim do caminho, como a música do Tom Jobim sem a poesia. Tempo do coturno na cara, do choque, do soco, do puxão de cabelo, da cabeça quebrada, do spray de pimenta, da bala, por enquanto de borracha. É o tempo da realidade, da dura e dolorosa realidade.

É revoltante ver companheiros de Profissão agredidos por exigir melhorias tanto nas condições de trabalho quanto nas condições de salário. É revoltante ver a Tropa de Choque bater e espancar companheiros de Profissão como se fossem bandidos da pior espécie. É mais revoltante ainda o deboche e o desinteresse de certos Governadores, Prefeitos, Vereadores, Secretários, Deputados e Senadores diante da situação precária da classe professoral no Brasil. É o caso, só para citar um exemplo, de uma parcela dos Professores do nosso estado vizinho, o Ceará, que ontem (29/09) entraram em confronto com o Batalhão de Choque da Polícia Militar. As cenas protagonizadas neste confronto são as mais revoltantes possíveis, como também foi revoltante a cena recente de Professores acorrentados em sinal de protesto no estado de Minas Gerais.

Até quando o discurso hipócrita de que se trabalha por amor vai imperar? Até quando vamos reproduzir este sistema que nos achincalha, que ri na nossa cara e nos dá pé na bunda? Tenho medo que um dia, meu filho – que ainda não tenho – sinta vergonha de mim porque sou Professor. Tenho medo de incentivar alguém a ser Professor, não minto mais nem para mim, nem para os outros. A realidade é essa. Se vai mudar? Não sei. A única coisa que escuto é o som do tapa na cara e o velho discurso de que a Educação é o Futuro do Brasil. E pelo jeito, o futuro vai ser uma Merda também.

(*) Josenias Silva é professor em Parnaíba (PI).

2 respostas para “É pau, é pedra, é o fim do caminho”

  1. Há um ditado que diz: ” é apanhando que se aprende”. Literalmente é o que ocorre, porque a educação que aí está é para formar escravos que apanham e quanto mais sofrem mais se resignam com sua condição. E o mais grave é perceber o aprofundamento dessa situação, nos dias atuais.

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