Lô Borges e Clara Charf – Fotomontagem/divulgação
Por Aldenor Junior
Hoje, 3, o mundo perdeu dois seres humanos extraordinários: Clara Charf, 100, militante revolucionária e feminista. Lô Borges, compositor mineiro, cidadão do mundo, ícone da Música Popular Brasileira.
Não tenho ideia se algum dia o caminho desses dois teria se cruzado fisicamente. Quem saberá?
O que se sabe, sem a menor sobra de dúvida, é que ambos tinham muito em comum.
Clara, uma alagoana de pais judeus, que chegaram ao Brasil fugindo das perseguições na Europa, desde muito cedo compôs, com linhas de aço, sua ferramenta de ruptura com o capitalismo e suas mazelas. Integrou o Partido Comunista, depois foi quadro da Ação Libertadora Nacional (ALN), junto com seu companheiro Carlos Marighella, e, desde os anos 1980, militou no PT, sempre com uma firmeza e uma doçura que só possuem aqueles se entregam à causa, sem subterfúgios ou vacilações.
Lô, um mineiro que desde muito jovem teceu com seus iguais uma rede da mais pura arte, brotada do solo da Pátria, fortemente fiel aos que sofrem e que, por isso mesmo, jamais abandonam seus sonhos. Com seu amigo e irmão Milton Nascimento, foi parte de uma das mais extraordinárias criações da cultura nacional, no Clube da Esquina. Sua música embalou gerações e despertou o olhar para a vida que deve ser o avesso da escravidão e da maldade.
Uma militante revolucionária, uma mulher forjada no afeto e da entrega aos oprimidos de todos os cantos da Terra. Um artista genial e que não teve medo de denunciar os “homens sórdidos” de ontem e de hoje, que não suportam a poesia feito punhal encantado.
Que suas vidas não se dissipem junto aos seus corpos físicos.
Que sejam eternos porque sobreviventes cotidianos, cada qual a seu modo, nas gerações que neles se inspiram. Para lutar. Para criar. Para celebrar, com o coração sempre em festa, a arte-vida.
*Aldernor Junior é jornalista








