Indígenas Munduruku bloquearam entrada da Blue Zone na manhça desta sexta-feira (14). Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil
Belém (PA) — No quarto dia da COP30, um protesto de aproximadamente 100 indígenas do povo Munduruku expôs, diante do pavilhão principal, as contradições entre o discurso climático e a realidade vivida pelos povos da floresta. Considerado um dos povos mais impactados pelo garimpo, por grandes obras de infraestrutura e pela expansão desenfreada do agronegócio, o grupo amanheceu em frente à Blue Zone exigindo uma audiência com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e denunciando a destruição de seus territórios.
Com cartazes e fotos dos rios contaminados pelo mercúrio do garimpo, os Munduruku denunciaram que megaprojetos avançam sobre o Tapajós e seus afluentes sem consulta prévia, livre e informada, direito garantido pela Convenção 169 da OIT, mas sistematicamente descumprido.
Entre as principais críticas estava o Decreto nº 12.600/2025, que instituiu o Plano Nacional de Hidrovias e estabelece os rios Tapajós, Madeira e Tocantins como eixos prioritários para navegação de cargas. Para as lideranças indígenas, o decreto abre espaço para novas dragagens, derrocamento de pedrais sagrados e a consolidação de um corredor logístico voltado à exportação de grãos. “Estão transformando nosso rio em uma estrada de soja”, afirmou uma liderança Munduruku.
“A COP está acontecendo na nossa casa, mas seguimos sem voz”
Alessandra Munduruku, uma das lideranças do povo indígena, expressou sua indignação:
“A COP30 está sendo bem na nossa casa, na nossa porta, mas a gente não tem voz. Estamos pensando no futuro das crianças e da Floresta. E, para ter futuro, tem que ter diálogo com a gente.”
Ela lembrou que o mercúrio despejado pelo garimpo já afeta diretamente a saúde das mulheres. Uma reportagem do site de notícias Samaúma, de outubro de 2022, revelam que o leite materno de mulheres Munduruku apresenta contaminação por metais pesados. “O útero das nossas mulheres está doente. Tem país que compra esse ouro, mas não vê a destruição que ele causa”, declarou.
Hidrovias, portos privados e Ferrogrão dominam as críticas
As lideranças denunciaram o avanço simultâneo de hidrovias, portos privados, projetos de crédito de carbono e da polêmica Ferrogrão, ferrovia que pretende ligar Sinop (MT) a Miritituba (PA) para escoamento de grãos. Para o povo Munduruku, a Ferrogrão é uma ameaça direta sobre os territórios e modos de vida, ampliando a instalação de portos, dragagens e circulação de grandes embarcações no Tapajós.
Dados do Inesc reforçam a magnitude da pressão: 68% dos investimentos federais em infraestrutura na Amazônia (2010–2022) foram destinados a corredores de exportação. Em 2023, 47% da soja brasileira saiu pelo Arco Norte; a movimentação de cargas no Tapajós saltou de 4 mil toneladas (2019) para 167 mil toneladas (2022).
Lideranças relatam redução da pesca, restrição de circulação, mudanças no comportamento dos rios e impactos de dragagens recentes — todos agravados pela expansão da soja no entorno.
Negociações na COP e reivindicações
Por volta das 8h30, o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, e a diretora-executiva Ana Toni chegaram ao local para dialogar. Eles conversaram com as lideranças Maria Leusa Kaba Munduruku e Alessandra Korap e conduziram a delegação a uma área reservada para negociação. Pouco depois, a entrada da Blue Zone foi liberada.
Entre as reivindicações apresentadas estão:
- Revogação do Decreto 12.600/2025;
- Cancelamento definitivo da Ferrogrão;
- Fim das dragagens e derrocamentos sem consulta;
- Barreiras ao avanço de portos privados;
- Investigação e responsabilização por contaminações por mercúrio;
- Aceleração das demarcações de terras indígenas, paradas no Ministério da Justiça e na Casa Civil;
- Proteção territorial diante do avanço da soja e da violência no campo.
O movimento afirma que os conflitos e pressões sobre os territórios aumentaram à medida que cresceu o interesse logístico da região. “O que está em jogo é a vida do povo Munduruku e a do próprio rio”, disseram.
“Não basta falar de futuro ancestral se não escutam os povos que protegem esta floresta”, afirmou uma liderança ao fim da manifestação.
Com informações de Samaúma Jonalismo e Repórter Brasil.








