A prisão do presidente da Alerj, acusado de conluio com deputado ligado ao Comando Vermelho, expõe as vísceras da política brasileira, mostrando que a infiltração das facções criminosas é sistêmica – Foto: Thiago Lontra/Alerj

Por Aldenor Junior

Atentem para a cena: o presidente do parlamento estadual de um dos estados mais poderosos do país é convocado para uma reunião na Polícia Federal. Ao chegar lá, recebe voz de prisão por obstrução de justiça. No seu carro, os policiais encontram R$ 90 mil reais em espécie. É muita certeza de impunidade, sem dúvida.

Desce o pano: a necrosada estrutura política do Rio de Janeiro é mesmo um poço sem fundo.

Rodrigo Bacellar, do União Brasil (sempre presente em nove em cada 10 escândalos de corrupção), é um jovem político cuja carreira meteórica serve para ilustrar o grau de degradação da cena institucional do Rio de Janeiro. Aliado do governador Claúdio Castro, do PL, sua estreia frente aos holofotes ocorreu ao relatar o impeachment do governador Wilson Witzel, um juiz federal que acendeu na onda lavajatista e logo se mostraria um fascistóide da pior espécie. Ao perder o mandato e ser encarcerado, Witzel abriu espaço para que Claudio Castro, uma figura menor e até então nas sombras, viesse a ocupar a cadeira elétrica do Palácio Laranjeiras, não se descartando que seja o próximo na longa lista de governadores que do apogeu à ruína não demoraram a ocupar o noticiário policial.

Olhando a trajetória dos governadores e presidentes da Alerj nos últimos anos – quase todos invariavelmente processados e presos – parece que tudo está em estreita sintonia com o roteiro do aclamado Tropa de Elite 2, campeão de bilheteria no não tão distante 2010. A cena quase no final virou um clássico e circula nas redes sociais: numa sessão de CPI numa Alerj fictícia (opa, será mesmo ficção?), o personagem tenente-coronel Roberto Nascimento vivido por um impecável Wagner Moura se dirige ao presidente da sessão, em meio aos apupos vindos do plenário: “Metade dos seus colegas aqui desta casa deveria estar na cadeia”. Corte rápido para a vida real.

Aliança com o crime organizado

Segundo a PF, Rodrigo Bacellar vazou dados de uma operação que visava prender outro deputado, o notório TH Jóias, acusado de vender armas para o Comando Vermelho. Alertado, o parlamentar destruiu provas, mas, como não há crime perfeito, deixou pistas que acabaram levando a seu padrinho e, quem sabe, sócio nas tenebrosas transações que dominam a política carioca.

Mas, como se sabe, há muito, esse fenômeno se nacionalizou. O país vive sob o domínio de um consórcio de quadrilhas engravatadas, que age em articulação estreita com aqueles que enriquecem praticando as falcatruas no mercado financeiro e em estruturas complexas de lavagem de capitais. É o suco infecto da política brasileira, cuja face mais visível tenta se ocultar sob o disfarce de homens de bem e protetores dos valores da família. Só se for da família na acepção dos capos sicilianos.

A oportunidade de se fazer uma faxina completa e profunda repousa na ação independente e firme da Polícia Federal, no âmbito de ordens judiciais ditadas pelo STF. Não à toa, duas instituições sob fogo cerrado da direita capitaneada pelos cardeais do Centrão e da extrema-direita verde e amarela.

É agora ou nunca. Ou o sistema, como dizia o fictício coronel Nascimento, vai vencer novamente.

Aldenor Junior é jornalista

 

Deixe um comentário