Representantes de instituições culturais e acadêmicas italianas e os “Museus Vivos” do Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia, fundado em 2004 para apoiar as reivindicações dos povos e comunidades tradicionais da região por meio da disseminação da autocartografia.
Modena (Itália) – O Museu Cívico de Modena inaugurou neste sábado (6) a exposição “Voci, saperi, patrimoni. Dall’Amazzonia al Museo” (“Vozes, saberes, patrimônios. Da Amazônia ao Museu”), resultado de um projeto internacional que reúne instituições italianas e representantes de comunidades amazônicas para repensar práticas museológicas, narrativas históricas e formas de conservação do patrimônio cultural indígena e tradicional.
A mostra, instalada no Lapidário Romano do Museu Cívico, é fruto de uma parceria entre o Museu de Modena, o Departamento de Línguas e Culturas Modernas da Universidade de Bolonha e os “Museus Vivos” do Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia (PNCSA), iniciativa brasileira reconhecida por sua atuação em auto-mapeamento participativo e defesa dos territórios tradicionais.
Participam da coordenação nomes como a diretora do Museu Cívico, Valentina Galloni, a curadora Francesca Piccinini, a pesquisadora italiana Alessia Di Eugenio, e o antropólogo brasileiro Alfredo Wagner Berno de Almeida, referência internacional nos estudos sobre cartografia social.
Museu como espaço de diálogo e não de silêncio
Distribuída em duas salas, a exposição propõe uma experiência imersiva que questiona o papel tradicional dos museus, historicamente marcados por métodos de coleta e classificação eurocêntricos, e abre espaço para que comunidades amazônicas narrem sua própria história.
A primeira parte, intitulada “Repensar o Museu”, revisita a origem das coleções etnográficas, reconhecendo a necessidade urgente de reinterpretar objetos e acervos a partir das vozes dos povos que os produziram. O Museu Cívico assume publicamente a intenção de rever sua postura institucional e promover uma abordagem dialogada sobre patrimônio, identidade e memória.
Nesse contexto, o auto-mapeamento aparece como prática central: ferramenta que permite às comunidades mapear seus territórios, monitorar invasões, registrar conflitos e afirmar fronteiras simbólicas e práticas, redefinindo a forma como seus espaços e histórias são narrados ao mundo.
Cartografia social como instrumento de luta
A segunda parte, “Rimappare l’Amazzonia” (“Remapear a Amazônia”), apresenta o trabalho do PNCSA, criado em 2004, que reúne pesquisadores, universidades e comunidades para produzir cartografias feitas pelos próprios povos indígenas, quilombolas e grupos tradicionais.
Esses mapas funcionam como instrumentos de denúncia, proteção territorial e afirmação política, especialmente em áreas pressionadas por desmatamento, mineração, grilagem e avanço do agronegócio.
“Museus Vivos”: presença amazônica na Europa
Entre 1º e 5 de dezembro, representantes de vários “Museus Vivos”, centros de saber e memória mantidos por comunidades amazônicas, trabalharam lado a lado com a equipe italiana para montar a exposição. Foram eles que escolheram e organizaram os objetos apresentados, definiram legendas e narrativas e transformaram o espaço em um ambiente de troca direta com o público europeu.
O resultado é um contraponto às exposições tradicionais: não se trata de vitrine, mas de encontro.
Entre Modena e a Amazônia: um projeto em expansão
O intercâmbio faz parte de um processo iniciado em 2022, que se intensificou após o Museu de Modena adquirir coleções relacionadas à pesquisadora brasileira Loretta Emiri, que viveu entre os Yanomami. Essas aquisições estimularam a criação de uma rede de diálogo com pesquisadores brasileiros e o PNCSA.
A iniciativa busca superar fronteiras disciplinares, linguísticas e culturais, reposicionando o museu como agente ativo no debate sobre colonialismo, direitos territoriais e preservação dos saberes tradicionais.
Programação continua com apresentações e oficinas
A inauguração contou com a presença do assessor de Cultura de Modena, Andrea Bortolamasi, e de Luiz Filipe Maciel, representante da Embaixada do Brasil.
Nos dias 7 e 8 de dezembro, representantes amazônicos retornam às salas do museu para apresentações de cantos, danças tradicionais e oficinas artesanais abertas ao público.
Tavola rotonda: debate sobre museus e Amazônia
No dia 12 de dezembro, o Museu Cívico promove a mesa-redonda “Dall’Amazzonia all’Europa: concezioni e pratiche museali in dialogo”, reunindo pesquisadores como Alfredo Wagner Berno de Almeida (PNCSA / UEA / UFAM), Cynthia Carvalho Martins (PNCSA), Benoît de l’Estoile (CNRS / Musée du Quai Branly – Jacques Chirac), Davide Domenici (Universidade de Bolonha) e Carolina Orsini (Museu das Culturas – Mudec, Milão).
O encontro discutirá desafios contemporâneos da museologia, representatividade de povos indígenas e processos de restituição e reinterpretação de acervos etnográficos.








