A inesperada e brutal perda de irmã Henriqueta Cavalcante desperta o senso de finitude e da transitoriedade humana, ao tempo em que revela, em seu esplendor, os testemunhos de uma vida inteiramente devotada à defesa dos mais pobres e vulneráveis
Chove nos campos de Cachoeira.
Hoje, são lágrimas que vitalizam as intermináveis terras marajoaras.
Marinatambalo, a Marajó ancestral, sente a dor da perda de sua maior defensora, sem que lá controlasse um mísero hectare ou uma única cabeça de gado.
Sua riqueza extraordinária ela carregava no coração e era de seu coração de mulher e de religiosa que se projetava um compromisso inarredável pela vida.
Ela nos seduzia pela leveza, coragem e entrega sem quaisquer interesses senão o de servir.
Henriqueta partiu. De uma forma tão inesperada quanto violenta.
Perdeu a vida na curva de uma estrada qualquer do Brasil profundo. Sem tempo de sofrer e sem agonia, porque a chama de sua vida (terrena, é claro) deve ter se apagado num átimo, enquanto sua força simbólica (e espiritual) se agigantava ainda mais.
A razão é singela: essa amazônida que tanto fez pelos mais pobres e pelos mais vulneráveis há tempos não se pertencia. Sua atuação cidadã evocava exemplo, compromisso, destemor. E isso, todos sabem, nada, nem a morte física, é capaz de aniquilar.
Irmã Henriqueta nos deixou órfãos de seu sorriso sempre aberto e de seu gesto largo que abraçava e acolhia.
Não há como não sofrer diante de sua partida precoce e inesperada.
Porém, quem a conheceu sabe que não é de lamentos que Henriqueta nos demandaria numa hora dessas. Sua vida exige celebração, alegria, canto, mãos estendidas em oração (aquela oração que nos impulsiona à frente, à ação prática em defesa dos mais humildes e da natureza em sua mais divina dimensão).
Portanto, que as lágrimas de sua perda nos sirvam de alento.
No céu de nossa enorme Pátria, desde ontem, 10, uma estrela rebrilha em encantamento.
Vai, Henriqueta, polinizar outros campos!
Vai, Henriqueta, iluminar o caminho dos que nunca se dobram diante do sistema de opressão e violência contra os de baixo!
Aqui, um pouco mais pobres, cabe apenas realizar a única homenagem capaz de honrar essa mulher-coragem: seguir sua luta, erguer suas bandeiras, festejar o utópico (e visceralmente humano) caminho que ela deixou como herança.
Por Aldenor Junior








