Modelo de compras adotado pela gestão Igor Normando amplia gastos, reduz concorrência e levanta questionamentos sobre critérios técnicos. Fotos: Reprodução

A maior parte dos contratos firmados pela Prefeitura de Belém, na gestão Igor Normando (MDB), vem sendo realizada por meio de adesão à ata de registro de preços, conhecido como “carona”, mecanismo pelo qual o município contrata empresas vencedoras de licitações realizadas por outros municípios ou estados, sem promover concorrência própria.

Esse é o caso do contrato para aquisição de uniformes escolares da Secretaria Municipal de Educação (Semec) publicado em janeiro deste ano, firmado com a empresa Rickmann Confecções Ltda., vencedora de licitação na modalidade pregão eletrônico realizada pela Secretaria de Educação do Estado de Santa Catarina.

O contrato firmado em 2026 alcança o valor de R$ 19.698.430,40 (dezenove milhões, seiscentos e noventa e oito mil, quatrocentos e trinta reais e quarenta centavos), montante 1.659,6% superior ao da compra realizada em 2022, quando a Prefeitura investiu R$ 1.119.496,00 (um milhão, cento e dezenove mil, quatrocentos e noventa e seis reais).

Mesmo em comparação com a aquisição feita em 2025, já sob a atual gestão, também por adesão à ata de registro de preços, com empresa sediada em Minas Gerais, o contrato de 2026 apresenta um aumento expressivo: 214,6% a mais em relação ao valor do ano anterior.

Entre os itens adquiridos estão jaquetas e blusões, que somam R$ 5.549.856,00 (cinco milhões, quinhentos e quarenta e nove mil, oitocentos e cinquenta e seis reais), peças incompatíveis com o clima equatorial de Belém, o que reforça suspeitas sobre o custo da contratação.

Adesão à ata de registro de preços deve ser exceção

A adesão à ata de registro de preços, também conhecida como “carona”, é um mecanismo previsto na legislação que permite a um órgão público contratar uma empresa vencedora de licitação realizada por outro ente federativo, sem promover uma nova disputa própria.

Na prática, funciona assim: um Estado ou município realiza uma licitação, registra os preços vencedores em uma ata e outros órgãos públicos podem aderir a essa ata para adquirir os mesmos produtos ou serviços, desde que observados limites legais e justificativas formais.

Apesar de ser legal, o uso da adesão à ata é controverso por vários motivos:

  • Reduz a concorrência, já que não há disputa direta entre fornecedores locais ou regionais;
  • Dispensa pesquisa de mercado aprofundada, o que pode resultar em preços desatualizados ou superiores aos praticados no momento da contratação;
  • Ignora a realidade do mercado local, pois quando se “pega carona” numa ata, o valor dos serviços ou produtos podem não ser condizentes com a realidade local. Neste caso, Santa Catarina tem realidade econômica bem diferente de Belém;
  • Dificulta o controle social;
  • Favorece contratações em grande escala, muitas vezes com valores muito superiores aos historicamente pagos pelo próprio órgão;
  • Exige justificativa técnica robusta, especialmente quando os valores contratados aumentam de forma expressiva, o que nem sempre ocorre.

Órgãos de controle, como os Tribunais de Contas, têm reiterado que a adesão à ata não deve ser regra, mas exceção, sendo necessária a comprovação de que a contratação é mais vantajosa para a administração pública do que a realização de uma licitação própria.

Ao transformar um mecanismo excepcional em prática recorrente, a gestão Igor Normando passa a usar a adesão à ata como atalho administrativo para contratos milionários, um modelo que concentra riscos, fragiliza a transparência e ameaça o interesse público.

Veja abaixo as publicações dos contratos no Diário Oficial de Belém

CONTRATO DE 2026

Contrato realizado, sem licitação, para fornecimento de uniformes ano de 2026.

CONTRATO DE 2025

Contrato realizado, sem licitação, para fornecimento de uniformes ano de 2025.

CONTRATO DE 2022

Contrato realizado, sem licitação, para fornecimento de uniformes ano de 2022.

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