O Pará da propaganda não é o Pará vivido pela maioria da população. Foto: Balthazar Costa (AID/ALEPA)
A mensagem do governador Helder Barbalho (MDB) à Assembleia Legislativa do Pará, nesta terça-feira (3), que abriu o ano legislativo de 2026 tenta construir a narrativa de que 2025 teria sido “o ano do Pará”, um divisor de águas histórico marcado por crescimento, protagonismo internacional e transformação social. Infelizmente, há um abismo entre o discurso do “Novo Pará” e a realidade social vivida pela maioria da população, especialmente quando se observam os indicadores de pobreza, desigualdade e insegurança alimentar em um estado rico como o nosso.
O texto enfatiza investimentos bilionários, grandes obras, recordes de exportação e a visibilidade internacional proporcionada pela COP30, sem citar que uma parcela significativa desses resultados decorre de políticas, financiamentos e decisões do governo federal, sob a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar disso, o Pará segue convivendo com altos índices de pobreza, fome e desigualdade social, sobretudo nas periferias urbanas, no interior e entre populações tradicionais. A riqueza mineral, energética e ambiental exaltada pelo governo não se converte em melhoria concreta das condições de vida de quem vive do trabalho precário, da informalidade ou da dependência de políticas públicas fragilizadas.
Quando o governador afirma que o crescimento “gerará riqueza para seu povo”, a mensagem evita enfrentar o debate sobre como essa riqueza é distribuída. Exportações recordes, grandes projetos logísticos e atração de capital não têm significado redução da pobreza. Pelo contrário: a história econômica do Pará mostra que modelos baseados em commodities e grandes empreendimentos frequentemente aprofundam desigualdades, concentrando renda, pressionando territórios e produzindo empregos temporários e mal remunerados. A mensagem não apresenta metas claras de redução da pobreza extrema, nem enfrenta de maneira direta o fato de que milhares de famílias seguem em insegurança alimentar.
Como um estado que exporta alimentos, energia e minério mantém parte significativa de sua população com dificuldade de acesso regular à comida? A mensagem prefere o símbolo ao diagnóstico, a vitrine ao enfrentamento das causas estruturais da fome, como renda insuficiente, precarização do trabalho, ausência de políticas robustas de abastecimento e fragilidade da agricultura familiar em muitos territórios.
Os investimentos urbanos concentrados, especialmente na Região Metropolitana de Belém, são apresentados como prova de transformação estrutural, enquanto regiões inteiras do estado continuam marcadas por ausência de serviços básicos, longas distâncias para acesso à saúde, escolas precarizadas e falta de saneamento. O discurso da modernização convive com uma realidade em que direitos fundamentais seguem sendo privilégio de poucos.
No conjunto, a mensagem de Helder Barbalho revela uma opção política clara de priorizar a construção de uma imagem de sucesso, eficiência e protagonismo global, enquanto naturaliza a permanência da desigualdade social como um problema secundário ou residual. O Pará que aparece no discurso é grande, moderno e admirado pelo mundo; o Pará vivido por milhões de paraenses, porém, segue lutando contra a pobreza, a fome e a exclusão.








