A marquetagem pretende criar um Flávio Bolsonaro de papelão, desidratado falsamente de sua gênese golpista e fundamentalista. É a aposta que restou ao andar de cima. Dará certo ou morrerá na praia? Façam suas apostas. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Por Aldenor Junior
“Meu amigo, Flávio”. O slogan criado pelos marqueteiros do pré-candidato da extrema-direita não poderia ser mais simples. Sumiram com o sobrenome famoso e, de quebra, buscam agregar uma face de bom moço para um dos políticos cuja trajetória pretérita e atual nunca foi o de ser uma pessoa cordata ou com algum pendor à proximidade com o povão.
Por mais tosco que pareça – e a história das eleições no Brasil está coalhada de exemplos de ideias rasas e absolutamente falsas que acabam dando certo -, a operação de lipoaspiração de Flávio Bolsonaro está em pleno andamento.
Além dos publicitários regiamente pagos pelo Partido Liberal (PL) – na verdade, com os muitos milhões dos recursos públicos transferidos à legenda via Fundo Partidário -, a manobra conta com a nem tão discreta participação de parcela significativa da mídia corporativa nacional. Esses veículos, quase todos, testemunharam o naufrágio da candidatura de Tarcísio de Freitas e na orfandade que se seguiu pularam na canoa do filho N° 1. Afinal, o que realmente importa é impedir, por quaisquer meios disponíveis, a vitória do presidente Lula. É como se fosse uma luta de MMA, com a suspensão de todas as regras de contenção da violência (simbólica, neste momento, pelo menos).
Flávio Bolsonaro não tem e nunca teve vida política própria. Tal qual os demais irmãos, foi criado pelo pai e alcançou vitórias eleitorais na esteira do prestígio que o ex-capitão amealhou durante três décadas de carreira no submundo do extremismo de direita. Portanto, pintá-lo como um “moderado” é um daqueles trabalhos de Hércules. Só não se deve vaticinar como um fracasso antecipado por conta de tudo que o país assistiu nos últimos anos. Não, definitivamente, esses políticos nefastos não podem ser tratados como piados de mau gosto.
Um vendilhão no Planalto
Há, porém, um grande adversário que pode fazer a marquetagem naufragar: o próprio Flávio Bolsonaro e sua língua servil e colonizada. Basta que se ofereça a oportunidade certa para que a máscara de bom-mocismo vire farelo, fazendo emergir, com a máxima limpidez, o caráter ardiloso de uma candidatura a serviço de interesses da mais agressiva potência estrangeira.
Foi assim na desastrada e, igualmente, sincera, fala do pré-candidato no conclave de radicais de extrema-direita em Dallas, Texas. Em poucos minutos de um discurso coreografado meticulosamente pela dupla Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, foram expostas as teses que sustentam esse projeto presidencial: golpismo e subserviência externa, tudo junto e misturado.
É assim, também, quando Flávio Bolsonaro insiste no ataque ao sistema eleitoral, repetindo, mesmo de que de forma velada, a teoria conspiratória contra as urnas eletrônicas. Com isso, prepara o caminho para deslegitimar uma eventual derrota e fincar as bases para uma intervenção direta da Casa Branca. Depois de tudo que está acontecendo no mundo, alguém pode carimbar essa hipótese como delírio esquerdista?
A direita, em sua versão brucutu ou sob uma maquiagem light, sabe que o Brasil é estratégico e que as eleições de outubro farão a diferença. É essa a razão que atrai para o lado de um sujeito tão despreparado o grosso do PIB e seus parceiros e sócios da grande imprensa. Pelo mesmo motivo, mas com objetivos antagonicamente distintos, a esquerda, o progressismo de todos os matizes e o que restou de sadio no chamado centro político precisam encaram essa disputa como uma encruzilhada entre a vida ou a morte da jovem e débil democracia brasileira.
Como em toda batalha decisiva, a sorte está lançada.
Aldenor Junior é jornalista.








