Michel Nkuka Mboladinga, torcedor da RD Congo, homenageia Patrice Lumumba — Foto: Carl Recine/Getty Images

Por Luiz Arnaldo Campos

A multidão é azul, dizia Nelson Rodrigues. Pelas lentes das câmeras que cobrem a Copa do Mundo, sem deixar de ser anil, as torcidas se transformam em explosões cromáticas, expressando os mais distintos tons da emoção. São cores que carregam fé, orgulho, desespero e esperança. Se combinam com gritos musicais para criar uma torrente poderosa que transborda dos estádios, ganha as ruas, viaja em velocidade extrema para todos os confins da Terra, rebrotando em bares, vilas, praias na forma de festa. A multidão é a alma que faz do pé na bola o esporte mais popular do mundo.

Se toda multidão é dramática, as torcidas de futebol são o drama em si mesmo. Durante o jogo vivenciam todos os elementos de uma narrativa: iniciação, conflito, clímax e desenlace, com um desempenho que o mais ranzinza dos críticos chamaria de espetacular. Por isso são comoventes e fazem das partidas, lembrando Nelson mais uma vez, um reflexo dos combates que ocorrem em esferas celestiais

Ontem, na Copa, aconteceu o dia dos humildes. O Paraguai desclassificou a poderosa Alemanha e o Marrocos fez o mesmo com a Holanda. A explosão das suas torcidas foi algo bem além do futebolístico. Era visível que comemoravam, cheios de autoestima, uma vitória maior, a afirmação dos “condenados da Terra” como o revolucionário caribenho Frantz Fanon chamou os povos do Terceiro Mundo.  Esta sensação era palpável, ainda que os selecionados germano e batavo tivessem diversos jogadores negros.

Frutos do drama da imigração, originado por séculos de colonialismo e escravidão, os negros europeus, presentes em quase todas as seleções do continente, elevam o futebol destes países e fortalecem a ideia de uma Europa multirracial, diversa e democrática, o que é muito bom. Porém, não apaga as cadeias que há séculos subjugam os países do chamado Novo Mundo aos senhores do capital, encastelados, principalmente no território europeu e na América do Norte. Por isto, ontem, em Ponta Porã, brasileiros e paraguaios passaram por cima das divergências de fronteira para vibrarem juntos pela vitória da seleção guarani contra a Alemanha. Pelo mesmo motivo, o Brasil é o segundo time da maior parte dos países do mundo, sejam latinos, africanos, árabes ou asiáticos.

Esta dimensão política da Copa nunca esteve tão evidente quanto nesta edição da Jules Rimet, principalmente por causa ferocidade do governo norte-americano, que com a conivência explícita da FIFA proibiu a seleção iraniana de se hospedar em seu território, negou visto a seus torcedores e a submeteu a todo tipo de hostilidade. Igualmente explícita foi a proibição de entrada do torcedor da República Democrática do Congo, Michel Mboladinga, que tradicionalmente nos jogos de seu país se faz de estátua viva de Patrice Lumumba, o líder da independência congolesa, morto num golpe de estado orquestrado pelos Estados Unidos e a Bélgica, a antiga metrópole colonial.

Apesar da proibição, nos jogos do Congo continuaremos a ver a figura de Patrice Lumumba, encarnada por outros torcedores, que assumem seu papel durante as partidas, num belo exemplo de resistência.

Assistir a Copa e não apenas os jogos do Brasil – que são imperdíveis – é uma experiência fascinante, recomendável para todos e todas, mesmo que em jogos como o vindouro Colombia X Gana, o coração vá enfrentar dificuldades em decidir por quem torcer.

Luiz Arnaldo Campos é cineasta e escritor. 

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