Deputado estadual Francisco Torres de Paula Filho, o Torrinho Torres, e seu irmão, ex-prefeito de São Félix do Xingu, João Cléber de Sousa Torres. Fotos: Baltazar Costa/Alepa e Reprodução

Na última quarta-feira (1), a Polícia Federal esteve na Assembleia Legislativa para cumprir um mandado de busca e apreensão no gabinete do deputado estadual Francisco Torres de Paula Filho, o Torrinho Torres (Republicanos). A ação faz parte da operação “Coronéis do Xingu”, que apura o direcionamento de licitações, contratação de empresas sem capacidade para executar os serviços, e consequente desvio de aproximadamente R$ 50 milhões em verbas destinadas à construção, reforma e ampliação de unidades escolares em contratos públicos firmados entre 2014 e 2024.

No total, 25 mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal nas cidades de São Félix do Xingu e Belém, no Pará, além de Natal, no Rio Grande do Norte, estado onde o deputado nasceu. A PF também investiga a possível prática de lavagem de dinheiro para ocultar os recursos desviados e apura a existência de ligações entre os investigados e atividades de garimpo ilegal de ouro na região do Xingu.

Além de Torrinho, também está entre os investigados seu irmão, João Cléber de Sousa Torres, ex-prefeito de São Félix do Xingu por três gestões, entre os anos de 2013 a 2016, 2017 a 2020 e 2021 a 2024.

Quem são os alvos da PF na Operação Coronéis do Xingu

Francisco Torres de Paula Filho, o Torrinho

Deputado estadual e produtor rural com base política em São Félix do Xingu, Francisco Torres de Paula Filho, conhecido como Torrinho Torres, era suplente de Igor Normando (PSDB) na Assembleia Legislativa do Pará. Torrinho já apareceu em reportagens nacionais sobre conflitos agrários, grilagem e disputas fundiárias no sul do Pará. Em 2022, a Repórter Brasil publicou que a Fazenda Baú, área reivindicada por Francisco Torres, era o local onde vivia o ambientalista José Gomes, o “Zé do Lago”, assassinado com a esposa e a enteada em São Félix do Xingu. A reportagem citou publicação da Folha de S.Paulo segundo a qual Zé do Lago vinha sendo pressionado a vender a terra, e que essa pressão viria de Torrinho. À Folha, segundo a Repórter Brasil, Torrinho negou tentativa de expulsão e disse que o ambientalista morava dentro de sua área com sua concordância

A mesma reportagem afirmou que a Fazenda Baú, reivindicada por empresa de Torrinho, constava como pendente no Cadastro Ambiental Rural e que a empresa Agropecuária Barra do Baú acumulava denúncias no MPF por crimes ambientais e descumprimento de embargos do Ibama. A Repórter Brasil também citou dados da Agência Nacional de Mineração indicando requerimentos de lavra feitos por Torrinho, parte deles em áreas públicas ou sobrepostas a assentamentos.

Em 2020, o El País Brasil publicou que João Cléber e Francisco Torres de Paula Filho foram apontados pelo MPF, em 2003, como líderes de uma quadrilha de grileiros na região e como supostos mandantes do assassinato de sete trabalhadores rurais e um comerciante no distrito de Vila Taboca. Segundo a reportagem, a denúncia dizia que o grupo atuava em áreas públicas da União, com invasão, derrubada de floresta, venda de madeira e ocupação das terras com gado. O texto também informou que a empresa Agropecuária Barra do Baú, ligada a Francisco Torres, acumulava multas ambientais milionárias por crimes contra a flora.

João Cléber de Sousa Torres

Ex-prefeito de São Félix do Xingu e irmão de Torrinho, João Cléber de Sousa Torres também já aparece em outras ações na Justiça Federal. Em uma ação penal, o MPF o acusa de envolvimento em suposto desvio de recursos do programa Brasil Sem Miséria/SUS, destinados à compra de próteses dentárias em São Félix do Xingu. Segundo a denúncia, em 2014 o Fundo Municipal de Saúde recebeu R$ 58.492,00, e teria ocorrido contratação direta indevida, seguida de montagem de processo licitatório fictício para dar aparência de legalidade à contratação. A denúncia foi recebida em março de 2025.

Em outra ação penal, João Cléber é acusado de suposta dispensa irregular de licitação para aquisição de uniformes, materiais e equipamentos destinados à vigilância em saúde, PACS e SAMU, no valor de R$ 283.271,67. A denúncia afirma que o procedimento foi autorizado sem justificativa adequada de situação emergencial. A ação teve audiência de instrução em abril de 2026, quando João Cléber negou as acusações e afirmou que os procedimentos licitatórios eram conduzidos pelas secretarias, comissões, controladoria e procuradoria jurídica do município.

Na área ambiental e fundiária, João Cléber responde a uma ação civil pública envolvendo a Terra Indígena Apyterewa. O MPF afirma que obras de recuperação de estrada vicinal dentro da terra indígena teriam sido autorizadas pela Prefeitura de São Félix do Xingu e poderiam beneficiar invasores, e não os indígenas. O processo também cita autuação do Ibama relacionada à destruição de 198,835 hectares de vegetação nativa na área. A Justiça negou liminar, por entender que parte das medidas já estava sendo tratada em outro processo de desintrusão, mas determinou a inversão do ônus da prova contra os réus.

Outra ação civil pública ambiental acusa João Cléber de responsabilidade por desmatamento ilícito de 21,09 hectares de vegetação nativa na Estação Ecológica Terra do Meio, em São Félix do Xingu. O dano teria sido identificado pelo ICMBio por imagens de satélite e mapeamento remoto. O processo cita auto de infração de R$ 115 mil e embargo da área. A defesa nega vínculo com o imóvel, mas a Justiça rejeitou preliminares e determinou a apuração do histórico de proprietários e possuidores no Cadastro Ambiental Rural.

João Cléber também respondeu a ação penal por suposta redução de trabalhadores a condição análoga à de escravo. O MPF havia pedido sua condenação pelo crime do art. 149 do Código Penal, mas ele foi absolvido em primeira instância, e o TRF-1 manteve a absolvição, por entender que o conjunto probatório não era suficiente para condenação.

Além dos processos judiciais, João Cléber aparece em reportagens nacionais sobre conflitos no campo. A Repórter Brasil citou relatório do MPF de 2019 que apontaria João Cléber e Torrinho como integrantes da cúpula de um grupo ligado à invasão, ocupação e grilagem de terras públicas em São Félix do Xingu.

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