Levantamento do De Olho nos Ruralistas, com coordenação editorial do jornalista Alceu Luís Castilho, analisou mais de 20 mil contratos e aponta que 40 artistas receberam R$ 3,08 bilhões de prefeituras e governos estaduais desde 2024. Foto: Show de Natanzinho Lima, em Tucuruí, no mês de fevereiro deste ano. Foto: Prefeitura de Tucuruí
Um dossiê publicado pelo observatório De Olho nos Ruralistas revela a dimensão dos gastos públicos com grandes shows no Brasil e mostra como a contratação de artistas por prefeituras e governos estaduais se conecta a interesses políticos, casas de apostas, produtoras milionárias e ao agronegócio. O relatório, intitulado “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio”, tem coordenação editorial do jornalista Alceu Luís Castilho e pesquisa assinada por Castilho, Bernardo Fialho, Bruno Bassi e Carolina Bataier.
O estudo analisou mais de 20 mil contratos de shows públicos. Segundo o levantamento, apenas os 40 artistas mais contratados por prefeituras e governos estaduais receberam, juntos, R$ 3,08 bilhões em apresentações realizadas entre 2024, 2025 e o início de 2026. Ao todo, o valor do top 100 ultrapassa os R$ 5 bilhões, valor superior ao orçamento do Ministério da Cultura para 2026, fixado em R$ 3,26 bilhões.
O relatório aponta que o problema vai além dos cachês milionários. As contratações, quase sempre feitas sem licitação, ocorrem sem concorrência e, muitas vezes, sem justificativas concretas sobre os valores pagos. Para o De Olho nos Ruralistas, a indústria dos shows públicos forma uma cadeia que envolve artistas, produtoras, agentes políticos, bets e setores ligados ao agronegócio.
O parentesco entre prefeitos e parlamentares
De Olho nos Ruralistas analisou grandes shows em municípios controlados por parentes de parlamentares. No Pará, um dos casos destacados pelo dossiê é o município de Tucuruí, no sudeste do estado. O relatório cita a cidade como o “caso mais marcante” entre os municípios que repetem um padrão de relação entre prefeituras comandadas por parentes de parlamentares e a destinação de emendas secretas. Segundo o levantamento, o cantor Henry Freitas, segundo artista que mais recebeu dinheiro público no país, apresentou-se em Tucuruí em 2 de outubro de 2025 e em 13 de fevereiro de 2026.
O relatório informa que o prefeito de Tucuruí, Alexandre Siqueira (MDB), é casado com a deputada federal Andreia Siqueira (PSB-PA), que destinou R$ 16,7 milhões em emendas Pix ao município. Não é possível associar diretamente as emendas aos cachês pagos aos artistas, em especial, por conta da falta de transparência e rastreabilidade desse tipo de transferência, que caem nas contas municipais sem destinação detalhada. Por este motivo, esses recursos vem sendo alvo de investigação pelo STF.
Quase R$ 80 milhões foram gastos no Pará
Nos dados referentes ao Pará na planilha do relatório Farras, do De Olho nos Ruralistas, aparecem 146 contratos de shows pagos por prefeituras. Somados, os valores chegam a R$ 79,35 milhões em cachês pagos por municípios paraenses a artistas do ranking nacional analisado pelo estudo. O maior valor individual é de R$ 1,2 milhão, pago pela Prefeitura de Santana do Araguaia para show de Wesley Safadão. Também aparecem cachês de R$ 1 milhão para Simone Mendes, em Tucuruí, Ana Castela, em Breu Branco, e Zezé di Camargo, em Marabá.
A concentração por produtora também chama atenção. A Camarote Shows, do cantor Wesley Safadão, lidera entre os contratos no Pará, com 32 apresentações e cerca de R$ 16,18 milhões. Na sequência vêm Vybbe, do também cantor, Xand Avião, com R$ 13,57 milhões, e Full Produções, com R$ 13,26 milhões. Também aparecem produtoras como M&P Produções Artísticas, Top Eventos/Tapajós Produções, Salvador Produções, WorkShow, RSS Produções, Boom Entretenimento e LB Produções.
Municípios com maior gasto médio em shows, considerando o tamanho da população
Entre os municípios, Conceição do Araguaia aparece com o maior volume de recursos na planilha: 16 contratos, que somam aproximadamente R$ 9,06 milhões, em uma cidade com população estimada de 47.144 habitantes. Em seguida vem Tucuruí, com 9 contratos e R$ 6,65 milhões, para uma população de 96.119 habitantes. Também se destacam Santana do Araguaia, com R$ 4,37 milhões para 30.455 habitantes, Barcarena, com R$ 4,21 milhões, e Marabá, com R$ 3,4 milhões.
A presença de cidades pequenas na lista reforça uma das questões levantadas pelo relatório: o peso dos cachês no orçamento municipal e a prioridade dada a esse tipo de gasto público. Municípios como Palestina do Pará, com 7.063 habitantes, aparecem com contratos de R$ 370 mil para Henry Freitas, R$ 450 mil para Tarcísio do Acordeon e R$ 300 mil para Iguinho & Lulinha. Já Piçarra, com 13.366 habitantes, aparece com contrato de R$ 700 mil para Henry Freitas. Conceição do Araguaia é a cidade do Pará que mais compromete o orçamento público com grandes shows públicos: 1,55% do total dos recursos.
O levantamento mostra ainda que há registros em municípios de diferentes portes e regiões do Pará, como Óbidos, Curionópolis, Bom Jesus do Tocantins, Rio Maria, Redenção, Bragança, Marituba, São Miguel do Guamá, Oriximiná, Cametá, Benevides, Parauapebas, Novo Repartimento, Breves, Canaã dos Carajás, Santarém, Itaituba, Juruti, Xinguara, Capitão Poço, Alenquer, Abaetetuba, Moju e Uruará, entre outros.
Confira abaixo os gastos com grandes artistas nacionais por município paraense:
| Abaetetuba | R$ 350.000,00 |
| Alenquer | R$ 300.000,00 |
| Aurora do Pará | R$ 350.000,00 |
| Barcarena | R$ 4.215.000,00 |
| Benevides | R$ 218.000,00 |
| Bom Jesus do Tocantins | R$ 1.250.000,00 |
| Bragança | R$ 2.300.000,00 |
| Brejo Grande do Araguaia | R$ 370.000,00 |
| Breu Branco | R$ 1.600.000,00 |
| Breves | R$ 650.000,00 |
| Bujaru | R$ 740.000,00 |
| Cametá | R$ 1.300.000,00 |
| Canaã dos Carajás | R$ 1.200.000,00 |
| Capitão Poço | R$ 600.000,00 |
| Conceição do Araguaia | R$ 9.068.000,00 |
| Cumaru do Norte | R$ 250.000,00 |
| Curionópolis | R$ 1.000.000,00 |
| Dom Eliseu | R$ 350.000,00 |
| Floresta do Araguaia | R$ 655.000,00 |
| Garrafão do Norte | R$ 270.000,00 |
| Igarapé-Miri | R$ 350.000,00 |
| Irituia | R$ 950.000,00 |
| Itaituba | R$ 600.000,00 |
| Itupiranga | R$ 1.750.000,00 |
| Jacundá | R$ 1.350.000,00 |
| Juruti | R$ 935.000,00 |
| Mãe do Rio | R$ 1.275.000,00 |
| Marabá | R$ 3.400.000,00 |
| Marituba | R$ 1.900.000,00 |
| Moju | R$ 300.000,00 |
| Nova Timboteua | R$ 1.109.000,00 |
| Novo Repartimento | R$ 1.000.000,00 |
| Óbidos | R$ 400.000,00 |
| Oriximiná | R$ 2.900.000,00 |
| Ourilândia do Norte | R$ 500.000,00 |
| Palestina do Pará | R$ 1.120.000,00 |
| Parauapebas | R$ 2.429.000,00 |
| Piçarra | R$ 700.000,00 |
| Primavera | R$ 500.000,00 |
| Redenção | R$ 954.000,00 |
| Rio Maria | R$ 1.550.000,00 |
| Santa Izabel do Pará | R$ 1.700.000,00 |
| Santana do Araguaia | R$ 4.370.000,00 |
| Santarém | R$ 750.000,00 |
| São Domingos do Araguaia | R$ 1.000.000,00 |
| São Geraldo do Araguaia | R$ 704.000,00 |
| São João do Araguaia | R$ 500.000,00 |
| São Miguel do Guamá | R$ 2.655.000,00 |
| Senador José Porfírio | R$ 600.000,00 |
| Tailândia | R$ 1.755.000,00 |
| Terra Santa | R$ 550.000,00 |
| Tucuruí | R$ 6.650.000,00 |
| Ulianópolis | R$ 770.000,00 |
| Uruará | R$ 300.000,00 |
| Vigia | R$ 1.604.000,00 |
| Vitória do Xingu | R$ 1.285.000,00 |
| Xinguara | R$ 1.150.000,00 |








