Foto: Mídia Ninja
As muitas lições do encantamento da educadora que semeou ao longo da vida a rebeldia como modo de ser
Por Aldenor Junior
Já não me recordo a primeira vez que meu olhar cruzou com o de Zélia. Eram, com certeza, os turbulentos anos 80.
Muito jovem, secundarista ainda, começava a frequentar o círculo de defensores de direitos humanos. Foi lá, certamente, que meu olhar cruzou pela primeira vez com o de Zélia.
Tanta doçura, tanta firmeza, tanta fortaleza ali naquela mulher cuja estatura física sempre fora inversamente proporcional ao seu talento, sempre ancorado na coragem dos que vieram antes dela, lá longe, atravessando o Atlântico, nas brumas de uma memória de fogo e de sangue.
Por incontáveis vezes meu olhar cruzou com o de Zélia. Na tecitura das primeiras bandeiras encarnadas do primeiro operário insubmisso que tentaria subir ao Planalto e desfazer, mesmo que parcialmente, o nó górdio de uma história de 500 anos de escravização (e, certamente, da mais decidida resistência).
Foi assim, de batalha em batalha, nos palcos, nas cátedras, nas ruas empoeiradas das periferias que começavam a se pôr em movimento, no Palácio Antônio Lemos, suntuoso e belo e repleto das digitais de nossos antepassados que misturaram aquela argamassa com seu próprio suor temperado a sangue; lá, naquele dia em que Edmilson abrira as portas para que o povo preto se fizesse dono do que sempre fora seu, mas também nas subidas da rampa do Planalto, com Lula e depois com Dilma, tendo as multidões dos pobres da terra a acompanha-los; enfim, são incontáveis encontros e em todos, mas em todos mesmo, Zélia não se desarmava do sorriso que expressava uma alegria despida de ingenuidade, porque símbolo de algo que sempre está por vir, essa utopia que tinha nela, mulher preta, sua mais perfeita expressão.
Muito se falará do legado, da memória viva de Zélia. E tudo que se fizer ainda será pouco.
Da minha parte, confesso, que prefiro guardar no lado esquerdo do peito o sorriso do primeiro dia em meu olhar encontrou o dela.
Zélia Amador de Deus, como um ser humano ímpar, deixou-nos fisicamente ontem, 8.
Mas, por favor, procurem com mais atenção e desprendimento. Tenho certeza que há pouco, numa das muitas ruas da periferia de nossa cidade rebelde, avistei no andar decidido e no sorriso estampado de uma jovem preta, com seus cadernos de universitária nos braços, o mesmo olhar da educadora e ativista que se fez eterna.
Aldenor Junior é jornalista








