Foto: Marcos Barbosa

“Lívia, não baixa a guarda”, reproduz deputada Lívia Duarte ao lembrar última conversa com Zélia Amador de Deus. Alepa reconhece obra da intelectual como patrimônio cultural e imaterial do Pará.

O projeto de lei de autoria de Lívia (PSOL) vai à sanção governamental. Ativista também foi homenageada com um minuto de silêncio na Alepa. Psolista apresentou requerimento de votos de pesar.

A Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) aprovou nesta terça-feira, 15, o projeto de lei de autoria da deputada estadual Lívia Duarte (PSOL) que reconhece a obra de Zélia Amador de Deus como patrimônio cultural e imaterial do estado.

A pedido de Lívia, os deputados fizeram um minuto de silêncio em homenagem à intelectual, falecida na terça-feira, 8. A deputada também protocolou requerimento de votos de pesar. Emocionada, Livia lembrou na tribuna a última conversa que teve com a ativista, que foi a maior referência no enfrentamento do racismo no Pará e uma das maiores do Brasil: “Lívia, não baixa a guarda”.

Doutora em Ciências Sociais, professora emérita da UFPA, fundadora do Centro de Estudos e Defesa do Negro no Pará (Cedenpa) e ativista dos direitos humanos, Zélia é autora e co-autora de vários livros publicados sobre racismo, democracia, direitos humanos e educação. Ela foi referência intelectual no enfrentamento do racismo e na defesa dos negros e negras, dos direitos humanos e da democracia.

“Um minuto de silêncio pelo falecimento, pela travessia, pelo encontro com a ancestralidade de Zélia Amador de Deus, grande intelectual paraense, uma das maiores do Brasil”, disse Lívia na tribuna do plenário Newton Miranda. “O falecimento de Zélia tocou a todos nós, negros e negras, pois a todos nós ela teve uma mensagem fundamental. Ela foi tão abridora de caminhos, tão ‘fissuradora’ de sistemas, uma pessoa de tão brilhante trajetória e de abertura para o povo negro deste estado, um verdadeiro portal aos jovens negros e negras a um futuo diferente do que nós temos”, justificou.

“Me emociona muito falar dela. As últimas palavras dela pra mim foram: ‘Lívia, não baixa a guarda’”, recordou a deputada, que também é ativista antirracista e pelos direitos dos negros e negras. Ela possuía relação pessoal com Zélia Amador de Deus. Lívia Duarte é a primeira deputada preta do estado do Pará e sofreu quatro ameaças de morte anônimas, por meio de mensagens eletrônicas que fazem referência à misoginia e ao racismo.

O projeto de lei que reconhece a obra de Zélia Amador de Deus como patrimônio cultural e imaterial do Pará segue para a sanção da governadora. Enquanto o requerimento com votos de pesar ainda será votado na Casa de Leis.

Livros de Zélia

Entre as obras de Zélia Amador de Deus que compõem o patrimônio intelectual a ser tombado está o livro “Caminhos trilhados na luta antirracista”, que retrata momentos marcantes da luta contra a ditadura, do processo de redemocratização do Brasil e a organização do movimento negro no Brasil, analisando os desafios enfrentados pelas pessoas que transformaram a política de igualdade racial e de antirracismo em razão de viver.

Ela também escreveu livros sobre a saga do movimento negro brasileiro contemporâneo, as “máscaras” do racismo, africanidades no ambiente escolar, violência institucionalizada, as dores do racismo e da discriminação e outros. Ela foi um divisor de águas ao contribuir com a percepção das especificidades do movimento negro dentro do feminismo. E também é considerada a principal colaboradora com a implementação de políticas de inclusão na UFPA.

Por meio do Cedenpa, do qual foi uma das fundadoras nos Anos 80, várias conquistas sociais foram alcançadas, como a titulação de terras a comunidades remanescentes de quilombos e outras políticas de proteção a direitos territoriais, por meio da Constituição Federal. Outros avanços foram os projetos educacionais de inclusão étnico-racial e de alfabetização de jovens e adultos de comunidades quilombolas e de periferias; e a articulação da Marcha de Mulheres Negras, entre outros.

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