Foto: Alexandre de Moraes/UFPA
UFPA – O lançamento oficial da 32ª edição do Auto do Círio foi marcado por um tributo à professora emérita Zélia Amador de Deus, uma das idealizadoras do programa de extensão da Universidade Federal do Pará (UFPA). Realizada na manhã de domingo, 13 de setembro de 2026, no Instituto de Ciências da Arte (ICA), na Praça da República, em Belém, a programação reuniu familiares, artistas, pesquisadores, produtores culturais, professores, estudantes e representantes da cultura paraense.
Falecida no dia 8 de setembro de 2026, aos 76 anos, Zélia teve participação decisiva na criação e na consolidação do Auto do Círio, manifestação que, há mais de três décadas, transforma as ruas do bairro da Cidade Velha em palco para o encontro entre teatro, dança, música, fé e cultura popular.
Durante o lançamento, a trajetória de Zélia foi celebrada por meio de exposições, apresentações artísticas e depoimentos de familiares, amigos e companheiros de atuação na Universidade, nas Artes e no movimento negro. A programação incluiu a performance Uma rosa em um deserto que desabrochou, de Rosy Lueji, e homenagens do Cedenpa, do Coro Cênico Ellegbara e de João da Hora e Pandeiro Livre.
O público também acompanhou a apresentação do tema e do cartaz da edição de 2026, seguida de um minicortejo até o Theatro da Paz. A homenagem foi encerrada no Anfiteatro da República, com o rufar de tambores “Salve, Zélia!”, reunindo artistas devotos do Auto do Círio, Batuque da Praça, Miguel Santa Brígida, Ruth Costa e Tainara Garcia.
Coordenadora do Auto do Círio, a professora da Escola de Teatro e Dança da UFPA Inês Ribeiro destacou a participação de Zélia na criação do programa e sua capacidade de reunir diferentes linguagens, artistas e grupos culturais. “O Auto do Círio é Zélia”, resumiu. Para a professora, o projeto concretiza o sentido de “religar” presente na própria palavra religião, ao aproximar pessoas independentemente de seus credos e conectar artistas da música, da dança, do teatro e do audiovisual à comunidade e aos grupos da cultura popular. “Nosso sentido aqui é cumprir a missão da UFPA e guardar o sentido da fé. Não ao ódio, não à separação, porque religião é religar, independentemente do credo”, afirmou Inês Ribeiro.
A coordenadora também ressaltou a importância da preservação do patrimônio material e imaterial de Belém e da Amazônia, responsabilidade que deve ser compartilhada pela sociedade, pelo poder público e pela Universidade. Ao lembrar a trajetória de Zélia, defendeu que a cidade mantenha viva a memória de uma mulher negra, filha de trabalhadora doméstica, que se tornou professora, artista, intelectual, ativista e vice-reitora da UFPA.
Um legado maior que a Universidade – Amigo de Zélia e companheiro em diferentes lutas pela democratização da Universidade, o reitor da UFPA, Gilmar Pereira da Silva, afirmou que o legado da professora ultrapassa os limites da Instituição e se projeta sobre a cultura, as Artes e a luta antirracista no país. “Zélia é maior que a Universidade. Sua trajetória e tudo o que ela representa não cabem apenas na história da UFPA, porque alcançam o país inteiro. O Auto do Círio expressa muito bem a dimensão da querida Zélia, é um programa de extensão que nasceu na Universidade, ganhou as ruas e hoje pertence à cidade e à cultura paraenses”, afirmou.
O professor Miguel Santa Brígida ressaltou, especialmente, a trajetória de Zélia como atriz, diretora, dramaturga e roteirista. O docente lembrou que a arena da Praça da República foi também um dos espaços de atuação artística da professora. “Tudo o que a gente for festejar, comemorar e celebrar sobre Zélia sempre será pequeno diante da grandeza dela”, declarou.

Miguel Santa Brígida recordou que Zélia foi sua primeira professora e diretora de teatro e teve papel fundamental na construção de sua trajetória como ator, diretor e pesquisador. Segundo ele, ela ajudou a dinamizar aquele espaço e participou de momentos importantes da história do teatro paraense, inclusive por meio do grupo Cena Aberta.
O professor também relacionou a contribuição de Zélia ao tema escolhido para o Auto do Círio deste ano. Para ele, além da necessária preservação do patrimônio edificado, é preciso reconhecer a professora como um patrimônio vivo, cuja presença permanece nas festas, nas ruas, nas Artes e nas lutas políticas.
“Zélia viveu a rua no melhor sentido da democracia, da luta e da diversidade. Ela idealizou o Auto do Círio, esse espetáculo que hoje reúne milhares de pessoas nas ruas para celebrar a Arte e a diversidade cultural”, destacou.
Arte, Universidade e transformação social – Zélia Amador de Deus ingressou na UFPA como estudante do curso de Letras, em 1971, e retornou à Instituição como professora, em 1978. Ligada às Artes, ensinou Teatro, Estética e História da Arte e participou da construção do então Núcleo de Arte, estrutura que deu origem ao atual Instituto de Ciências da Arte.
Entre 1989 e 1993, dirigiu o então Centro de Letras e Artes. De 1993 a 1997, exerceu o cargo de vice-reitora da UFPA, tornando-se a primeira mulher negra a ocupar a função na Universidade.
Foi nesse período que participou da idealização do Auto do Círio, ao lado de outros artistas e professores. Criada em 1993, com base em uma experiência de teatro de rua, a iniciativa consolidou-se como uma das mais longevas ações de extensão cultural da UFPA e como espaço de comunhão entre a Universidade, os artistas e a sociedade paraense.
A atuação de Zélia também alcançou a pesquisa, a militância antirracista e a defesa das políticas de ação afirmativa. Cofundadora do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), participou das mobilizações que contribuíram para transformar o perfil da UFPA e ampliar a presença de pessoas negras, indígenas e quilombolas na Instituição.
Em reconhecimento à trajetória construída na docência, nas Artes, na gestão e na defesa da diversidade, Zélia tornou-se, em 2020, a primeira mulher negra a receber o título de Professora Emérita da UFPA.
“O que mata verdadeiramente não é a morte, mas o esquecimento, e esse ela nunca sofrerá. Zélia será sempre lembrada. Foi uma pessoa rara, que construiu o próprio destino, passo a passo, por meio do amor que teve pelas pessoas, pela vida e pela igualdade. Quero celebrar aqui a dignidade dessa mulher e tudo o que ela realizou”, afirmou o professor e poeta João de Jesus Paes Loureiro, destacando a permanência de Zélia na memória das pessoas e das instituições que ela ajudou a transformar.
Auto do Círio 2026 – Com o tema “Maria, Salvai e Guardai Nosso Patrimônio Sagrado e Nossa Fé”, a edição de 2026 propõe uma reflexão sobre a preservação do patrimônio cultural, da memória, da fé e das tradições que integram a identidade amazônica.
Organizado pela Escola de Teatro e Dança da UFPA (Etdufpa), o Auto reunirá artistas da Universidade e de diferentes grupos culturais em um grande cortejo pelas ruas da Cidade Velha. A programação será realizada no dia 9 de outubro, sexta-feira que antecede o Círio de Nossa Senhora de Nazaré.
Por meio de alegorias, músicas, danças, encenações e símbolos visuais, o cortejo colocará em diálogo a tradição religiosa e as diferentes expressões da cultura ancestral e contemporânea dos povos amazônicos.








