“Não olhe para cima” é como uma parábola clássica de um mundo acometido por pandemia e negacionismo

Imagem: Divulgação/Netflix

Por Ju Abe

Dois cientistas preveem uma catástrofe com potencial para extinguir a espécie humana, e fazem de tudo para avisar a população, mas ninguém acredita. De políticos muito poderosos, agentes midiáticos e leigos, partem pejorativos variados lançados aos cientistas vividos por Jeniffer Lawrence, Leonardo Dicaprio e Rob Morgan. Uns os chamam de “comunistas”, uns de “bipolares” e outros de “baderneiros”, porém entre estes agentes do preconceito há algo em comum: a negação da ciência, o refutar dos dados comprovados, a descredibilização da comunidade de pesquisadores, a minimização da catástrofe.

A semelhança com a realidade não é mera coincidência. Como uma parábola clássica, o longa-metragem é análogo em detalhes à realidade contextual, no nosso caso, um planeta pandêmico que acaba de perder mais de cinco milhões de habitantes para um vírus. Aliás, é análogo em especial aos EUA e Brasil, cujos presidentes insistiram em minimizar e negar dados científicos por tanto tempo, deixando a epidemia se espalhar e mostrando total falta de empatia às vidas perdidas. Não admira que “Não olhe pra cima”, cujo título corresponde precisamente ao original em inglês “Don’t look up”, tenha surgido como uma catarse artística de um mundo cansado por não ter nem tido o direito de exigir respeito ao seu luto, quando governantes daquelas grandes nações caçoavam publicamente da tragédia noticiada diariamente nos maiores veículos, durante longos dois anos (e o fazem até hoje).

Pra falar um pouco de coisa boa, o filme precisa ser visto pelo menos três vezes para que sejam merecidamente apreciadas todas as atuações estonteantes que rapidamente percorrem a dinamicidade comum a todo enredo catastrófico, incluindo Leonardo Dicaprio mostrando o que este site ousa chamar de melhor fase de toda a sua carreira. O ator, que atualmente é um dos artistas mais engajados em causas ambientais e humanitárias do mundo, parece viver um lado de si mesmo, colocando pra fora em brilhante expressão toda a indignação que representa tantos.

Quando Donald Trump, entre as várias vezes que minimizou a pandemia disse, em fevereiro de 2020, em seu Twitter, que “estava tudo sob controle”, enquanto cientistas em vão tentavam fazê-lo enxergar o caminho para que o país não se tornasse o epicentro global- o que acabou acontecendo; ou quando Bolsonaro ainda mais grotescamente chocou o planeta afirmando que era apenas uma “gripezinha”, simplesmente ignorando as medidas sanitárias orientadas pelos nossos melhores epidemiologistas, e, como era previsto, transformou o Brasil no próximo epicentro mundial, eles não contavam que essas atitudes descabidas seriam convertidas em sétima arte- e nem nós. “Não olhe pra cima” é surpresa do início ao fim, e, quem sabe, a arte não seja mesmo, como disse o filósofo Marcuse- a única linguagem restante para mostrar o óbvio.

Ju Abe é cantora e compositora de Belém/ Pará / Brasil

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