Em carta dirigida à população de Belém, o ex-diretor de vigilância à saúde da Secretaria Municipal, Claudio Salgado, fez um balanço de sua atuação a frente do órgão, agradeceu à população e afirmou que a ciência foi colocada a frente das decisões. Salgado também agradeceu ao Prefeito Edmilson Rodrigues pela confiança: “ao secretário e ao prefeito, tanto pelo convite quanto pelo apoio em todos os momentos da pandemia, que se estende a todo o secretariado da prefeitura de Belém, que sempre nos acolheu e respeitou. Confira a carta na íntegra.

Carta de agradecimento à população de Belém

No dia 1 de janeiro de 2021 assumimos o desafio de dirigir o departamento de vigilância à saúde de Belém (DEVS) na Secretaria de saúde da capital (SESMA), eu e mais 4 colegas convidados por mim. Naquele momento, sabíamos que o desafio era enorme, que estávamos ainda em plena pandemia, e que teríamos que enfrentar o desafio de vacinar Belém contra a COVID-19, além de receber, depurar, apresentar os dados sobre a saúde em geral da capital, e propor soluções.
O primeiro desafio foi olhar para Manaus, naquele momento em grandes dificuldades com a COVID-19, e tentar entender o que poderia acontecer em Belém. Conversamos com os pesquisadores do Laboratório de Genética Humana e Médica da UFPA, com quem já tínhamos trabalhos em conjunto, e as variantes passaram a ser identificadas em Belém e informadas à população. Expusemos todos os dados ao prefeito Edmilson Rodrigues e ao secretário de saúde Maurício Bezerra em uma reunião na prefeitura, e saímos de lá na certeza de que a ciência seria colocada à frente de qualquer outra situação, como sempre fizemos nós, toda a diretoria do DEVS, durante as nossas carreiras acadêmicas. Aqui faço um agradecimento especial ao secretário e ao prefeito, tanto pelo convite quanto pelo apoio em todos os momentos da pandemia, que se estende a todo o secretariado da prefeitura de Belém, que sempre nos acolheu e respeitou.
Juntamente com outros departamentos da SESMA, os planos foram sendo colocados em prática, e passamos pela segunda onda em Belém em uma situação menos desconfortável do que a onda anterior. Ao mesmo tempo, no dia 19 de janeiro iniciamos a vacinação da capital do Pará no Hangar, em conjunto com o governo do estado, no que viria a ser a maior campanha de vacinação já realizada em Belém, nos fazendo chegar, recentemente, a mais de 3 milhões de doses aplicadas, o que impediu centenas a milhares de novos óbitos quando passamos pela terceira onda, já em janeiro de 2022.
Desde o início, a nossa opção foi por um diálogo direto, coerente e simples com a população em relação a todos os passos que seriam trilhados com a vigilância à saúde de Belém, que inclui a vacinação. A proposta foi muito bem absorvida por todos e fizemos centenas de entrevistas, vídeos, notas, cards e outras mídias que a população se acostumou a assistir, ler e entender, e que nos levou ao sucesso que tivemos na vacinação em Belém, um sucesso totalmente dependente da própria população. Aqui também segue um agradecimento especial à ASCOM da SESMA, à COMUS da prefeitura, e à imprensa em geral, que sempre esteve atenta e de portas abertas para canalizar as nossas conversas e levar a informação correta a população.
Inovamos com o aplicativo Belém Vacinada, que nos deixou independente do aplicativo do Ministério da Saúde, que tinha muitos problemas no início da vacinação. Com o aplicativo, gerado por nós em conjunto com profissionais de uma empresa de Belém incubada na UFPA, agilizamos a vacinação, praticamente descartando o uso do papel, garantindo a qualidade dos dados pelo uso do CPF, e enviando os dados ao sistema do Ministério da Saúde durante a madrugada, o que nos livrou da lentidão e dos problemas do sistema durante o dia.
Além do diálogo com a população, precisávamos de mais portas de acesso ao sistema de saúde para vacinar. Obtivemos respostas positivas imediatas de quase todos os estabelecimentos contatados, clubes, shoppings, faculdades e universidades públicas ou privadas. Chegamos a ter 26 pontos de vacinação e a vacinar mais de 33 mil pessoas em apenas um dia, com o trabalho incansável de um batalhão de profissionais da saúde, vacinando freneticamente e com qualidade, em meio a uma pandemia por uma doença potencialmente fatal. Gente da SESMA, da SESPA, das forças armadas, das forças de segurança e milhares de voluntários e estudantes. Chegamos a ter mais de 1500 pessoas trabalhando ao mesmo tempo em Belém para que nada faltasse na vacinação. Nossos mais sinceros agradecimentos a todos.
Ao mesmo tempo, testamos milhares de pessoas, e de modo silencioso bloqueamos surtos de doenças potencialmente fatais como sarampo e malária, além de possíveis novos surtos de COVID-19 a cada caso novo descoberto entre as ondas da pandemia em Belém. Pensamos, desenhamos, propusemos e colocamos em prática projetos de contenção de surtos nas escolas municipais, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação (SEMEC), como é o caso do projeto Guardiões, em que trabalhadores da educação treinados acionam a vigilância da SESMA por meio de um aplicativo criado com esta finalidade junto com os colegas da UFPA. Após investigação, os técnicos do DEVS desencadeiam uma resposta imediata, que pode ir do isolamento dos casos por sintomas clássicos, até a ida de uma equipe à residência do aluno ou do profissional da educação para testagem da família in loco. Obrigado, SEMEC.
Em paralelo, mais inovação para entender melhor os vetores das doenças, como é o caso dos mosquitos transmissores de, por exemplo, dengue e Zika. Armadilhas estrategicamente colocadas pelos agentes de endemias em quintais ou laterais de casas de Belém, com espaços previamente definidos entre elas. Retiradas após uma semana, seguem para avaliar as espécies e a densidade. Com tudo isso georreferenciado, o tratamento químico de uma área se torna muito mais preciso e econômico. Aos Agentes Comunitários de Endemias, que estão em campo todos os dias, debaixo de sol e chuva, oito horas por dia, e que também não se furtaram de participar da vacinação, todo o nosso respeito.
No Centro de Controle de Zoonoses, trabalhos incansáveis de castração e chipagem animal no continente e nas ilhas de Belém, captura de morcegos para avaliar a presença do vírus da raiva em conjunto com o Instituto Evandro Chagas, investigação de filariose e leishmaniose animal, e mais inovação com o primeiro censo de pets da capital utilizando um novo aplicativo, desta vez já produzido no próprio DEVS, e trazendo a expertise da UFPA para dentro da SESMA, o que podemos chamar de transferência de tecnologia ou, mais simplesmente, de educação.
O DEVS tem um potencial enorme e muito a oferecer à Belém, para além do tratamento dos dados, tudo previsto na Política Nacional de Vigilância em Saúde, de 2018. Fazer a vigilância de agravos ou situações aparentemente tão díspares como a violência e a fome, a habitabilidade e a gravidez, é plenamente factível a curto prazo, de modo simples. Alguns destes, inclusive, já encaminhados no contexto das nossas possibilidades. Precisa remover as amarras, usar a tecnologia ao máximo e colocar a ciência sempre à frente dos processos.
Encerramos um ciclo com o saldo positivo. Saímos com a certeza de que é possível termos uma Belém saudável para todos.
Obrigado, Belém!

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