Especial mês das mães: o cuidado com as crianças deve ser compartilhado por toda a sociedade e não apenas deixado à cabo das mães

(Foto: Agência Belém)

Ju Abe

Desde o início da Reforma Previdenciária colocada a cabo no governo Temer e consolidada no governo Bolsonaro, o tema do envelhecimento da população brasileira ganhou espaço nos veículos midiáticos. A grande mídia, formada em sua maioria por herdeiros das castas privilegiadas que a séculos dominam os espaços de fala no Brasil, está acostumada a mostrar somente um lado da moeda, e geralmente, é aquele que defende os donos do poder. Ou seja: a narrativa principal é a de que “A Reforma Previdenciária é necessária pois acompanha o envelhecimento da população”.

Mas, porque ao invés de retirarmos progressivamente os direitos previdenciários de pessoas que doaram suas vidas ao mundo do trabalho e precisam do Estado para passar os últimos anos de suas vidas em tranquilidade, nós não começamos a discutir uma legislação trabalhista e políticas públicas que possibilitem o retorno ao rejuvenescimento da população?

Sabe-se que o mundo do trabalho precisa disto, pois o contingente populacional jovem que trabalhe suficientemente para compensar os gastos previdenciários é necessário para o equilíbrio da economia. Entretanto, no Brasil, pouco se fala em modificação de leis trabalhistas ou políticas públicas sensíveis às pessoas que têm filhos. O que se vê, ao contrário, é uma grande invizibilização dos cuidados com crianças no mundo do trabalho. Empresas, leis trabalhistas e políticas públicas simplesmente fingem que os cuidados com crianças exercidos por seus funcionários não existem.

E quando falamos de leis trabalhistas pouco sensíveis a pessoas com filhos, nos referimos à um público-alvo majoritariamente feminino. Atualmente no Brasil, já existem também os pais solo (que criam os filhos separados das mães de seus filhos), mas a parcela feminina da população exercendo esse papel ainda é a esmagadora maioria.

A vereadora Lívia Duarte (PSOL/ Belém), em entrevista ao Jornal O Liberal publicada neste domingo, disse: “A maternidade me fez pensar sobre a intensidade das jornadas de trabalho de uma mulher. Problemas silenciosos de todas as mães que não são ditos porque a gente é criado para dizer que tudo na maternidade é lindo. E, infelizmente, não é”. A psolista acrescenta ainda, na mesma matéria, que a presença de mães na política paraense é menor do que o tema merece, classificando o fato de apenas cinco mulheres estarem eleitas na Câmara Municipal de Belém como uma sub-representação.

A vereadora Lívia Duarte (PSOL) divide-se em cuidados com três crianças e as obrigações de seu mandato

Ou seja, mulheres têm sido sistematicamente excluídas dos espaços profissionais, pois são elas que predominantemente executam os cuidados com os filhos. Sem tempo para dar conta das grandes obrigações do trabalho e a jornada de cuidados domésticos, a maioria ainda opta por simplesmente ficar fora do mercado. Ou, como tem sido percebido mais contemporaneamente, optam por não terem filhos para poder dedicar-se inteiramente às carreiras. Ambos os fatos agravam problemas sociais, o primeiro, como exposto por Lívia, agrava o problema da subrepresentatividade feminina no mundo profissional e o segundo, agrava justamente o envelhecimento da população, pois cada vez mais mulheres abrem mão do sonho de maternidade, por causa das obrigações profissionais.

A vereadora psolista é casada com o economista Claudio Puty. Se para ela é difícil, com certeza deve ser bem pior para as 11 milhões de mães solo no Brasil (dados do IBGE). Para estas, existe somente a opção das creches, cuja quantidade de vagas ofertadas ainda não é suficiente para suprir toda a demanda. Porém, mais do que oferecer espaços que cuidem dos filhos enquanto as mães estão em seus trabalhos, é preciso reconhecer os cuidados domésticos como parte das jornadas de trabalhos destas mulheres, com ações sensíveis às suas necessidades particulares. De outra maneira, o mercado continuará invisibilizando os cuidados domésticos como parte importante da estrutura social, e o resultado será o crescente envelhecimento da população.

Em um artigo do site Harvard Business Review, as jornalistas americanas Brigid Schulte e Stavroula Pabst pontuam que a administração Biden tem se comprometido com maiores investimentos em benefícios à famílias que precisam ausentar-se dos trabalhos para cuidarem de seus filhos, além do reconhecimento estatal de cuidados domésticos com crianças como pilar social essencial.

Entretanto, dizem Shulte e Pabst, tais ações devem também estender-se a empresas privadas, as quais necessitam responsabilizar-se em desenvolver políticas internas que acolham pessoas com filhos em seus ambientes. Algumas sugestões de tais práticas seriam folgas remuneradas mais volumosas e pagamento de horas extras em atividades fora de horários comerciais para os funcionários que precisam passar parte de suas jornadas cuidando de suas crianças.

Uma sociedade que compartilha os cuidados com as crianças, acolhendo-os como pilar estrutural essencial e não deixando tais cuidados exclusivamente sobre os ombros das mães, é com certeza uma sociedade que caminha a um futuro mais próspero, pacífico e feliz.

 

Deixe uma resposta