A Casa Bruno de Menezes e o escritor, símbolo do modernismo paraense. Foto: Mácio Macedo e Reprodução

A Casa Bruno de Menezes, espaço criado para homenagear o escritor paraense e preservar a memória do modernismo no Pará, foi desativada pela gestão do prefeito Igor Normando (MDB). A Casa, que funcionava em um prédio anexo ao Palacete Pinho – ambos totalmente reformados – foi inaugurada em 2024 e guardava parte do acervo da obra de Bruno de Menezes, doado pela família do escritor à Prefeitura de Belém, assim como outras personalidades paraenses do movimento modernista.

Abaixo, o relato do professor e pesquisador Paulo Nunes.

O FIM DE BRUNO DE MENEZES?

Texto do professor e pesquisador Paulo Nunes

Este post era para ter sido feito há uns três meses, mas, confesso, foi difícil digerir o fato que ora torno público. Os que nos engajamos na valorização da literatura aqui produzida e, consequentemente, seus autores e autoras (a exemplo de Bel Fares, Josse Fares, Elaine Oliveria, eu, para citar 4 nomes de nosso grupo das Letras), faz mais de 20 anos, lutamos para que Belém, uma das capitais referenciais dos Modernismos literários brasileiros, tivesse um espaço de memória da literatura, a exemplo do que ocorre em Salvador (Casa de Jorge e Zélia Amado), Recife (Gilberto Freyre), Porto Alegre (Hotel Majestic Mário Quintana), São Paulo (Rua Lopes Chaves ‘Mário de Andrade’), Rio de Janeiro (Academia Brasileira de Letras), Manaus (a Praça da Polícia).

Pois bem, com as “passagens” de Maria de Belém e monsenhor Geraldo e o desejo dos demais filhos de Bruno de Menezes, destacando-se Marilia e Lenora, percebemos, com a chegada de Edmilson Rodrigues à PMB, em 2021, a chance deste sonho tornar-se realidade. Desta feita, atendendo a um pedido de irmã Marília Menezes, e cumprindo uma solicitação daquele prefeito, redigi um memorial sobre a importância de Bruno e da casa situada na João Diogo, 26, última morada deste grande poeta e jornalista.

Como é de conhecimento público, enquanto fui casado com Josse Fares, e Maria de Belém e Maria Ruth Menezes ainda viviam na JD 26, frequentávamos a casa dos Menezes e ouvimos muitas histórias (dá para sair um livro dessa fase), em mais de 20 anos de convivência com os filhos de dona Francisquinha e do poeta de “Batuque”. Pelo menos 2 vezes por ano, nos confraternizávamos e bebíamos do Modernismo (e histórias antes dele) ‘na veia’, liamos livros, vimos cartas e documentos importantes. Nossos encontros, invariavelmente, eram regados a Guaraná Garoto, vinho do Porto, bolinhos de bacalhau e sucos regionais. Para arrematar, a adoçar nossas bocas, as guloseimas de tucumã (“Em homenagem ao Dalcidio!”, dizia, bem humorada, a amiga Maria de Belém!).

Quando Ruth, Belém e o monsenhor Geraldo Menezes “partiram para fora do combinado”, começamos – ante a aflorada vontade de Marilia, a freira-poeta-jornalista, a articulação para a criação de um museu: a “Casa Bruno de Menezes, memorial do Modernismo da literatura paraense”. De posse do dossiê/memorial sobre Bruno e a casa JD 26, Edmilson, com o beneplácito de familiares e grande parte dos admiradores da literatura paraense, assinou decreto de desapropriação, “para uso público”, da legendária casa, com a finalidade de criação do sonhado memorial. E segundo eu soube pelo poder público, a herdeira do imóvel, bisneta de Bruno, não concordou com o processo e judicializou a causa, e desta feita “freou” o processo.

A FUMBEL, o gabinete do prefeito e outros órgãos municipais passaram “uma vida” a tentar resolver a peleja, a desenrolar o nó judicial. Diante do ocorrido, veio de Manaus a solução: Marília escreveu ao prefeito que então ocupava o palacete Antônio Lemos, solicitando que para que o acervo do seu pai “não se perdesse”, e que “uma casinha qualquer, simples, tanto que fosse na Cidade Velha, abrigasse a memória de Bruno e sua geração”.

Aí entra na história a SEMEC, através de sua titular, a professora Araceli Lemos e equipe, que foram rápidos; por determinação do prefeito, o processo sairia da FUMBEL e passaria pro campo da educação, o que apressaria a criação do memorial. Em menos de 4 meses o que era projeto virou realidade. O memorial foi acolhido pelo Núcleo de Artes, Cultura e Educação da SEMEC, o NACE, e a memória de Bruno de Menezes e sua geração passou a habitar o anexo do Palacete Pinho, devidamente restaurado.

Agosto abriu com festa e celebrações várias à literatura negro-amazônica, com a instalação da exposição “batucando com Bruno de Menezes”, com a curadoria do poeta e designer Marcilio Caldas Costa e trabalho incansável de Marta Ferreira e Lívia Faro, esta que concebeu o jardim de mãe Balbina. Muitos que estavam envolvidos com esta causa, desde o prefeito até advogados e artistas plásticos, que se engajaram no projeto e nós, enfim, respirávamos aliviados, não é, Paulo Roberto Ferreira e Marta Ferreira, Rodrigo Wanzeler, Vânia Torres, Marcos Valério Reis?<

Esta congregação de felicidades aglutinou a família Menezes na “causa” e teve um casal parceiro, especial: Lilia e Max Reis, e mais a filha do casal, Carolina, outra bisneta de Bruno e Francisquinha; foram eles que organizaram o processo de doação do acervo, ordenaram as dezenas de caixas e doaram-nas ao Memorial Bruno. Um contrato foi assinado entre a família e a Prefeitura de Belém/ SEMEC, e um seminário sobre a obra de Bruno lotou o cine-auditório Dira Paes no dia de sua instalação, em que a confluência de muitas falas foi antecedida pela visitação ao novo espaço pela comitiva de Edmilson, da secretária Araceli, entusiastas da nossa literatura, para além das “demagogias politiqueiras”, tão comuns.

Aconteceu um encontro acadêmico sobre Bruno, que teve como convidados, Bel Fares, João de Jesus Paes Loureiro, Carolina Reis, eu e outros especialistas em Bruno. No auditório, a família de Bruno (inclusive o braço familiar carioca do poeta, que veio do Rio pra testemunhar o grande dia). Artistas, ‘performistas’, professores, estudantes de Letras e técnicos que testemunharam os cuidados com que a equipe da prefeitura de Belém teve com o novo espaço, destaque para o “Jardim de dona Balbina”, que foi uma sugestão minha, composto de grafites e da escrita de poemas de Marília, em homenagem à sua avó, além de um belo trabalho do artista Marcelo do Grafite com os retratos da mãe de Bruno. Ali concentrava-se, segundo se fazia necessário, uma justa homenagem à velha mãe preta, formadora do caráter afrodiaspórico de Bruno, além de aludir a outras grandes mulheres paraenses, como Zélia Amador de Deus, Felipa Aranha, Iracema Oliveira, Anaíza Vergolino, Zeneida Lima, Nilma Bentes, Eneida, Luzia Miranda, entre outras.

Mas com a escolha do novo alcaide de Belém, que assumiu no dia 01 de janeiro de 2025, o Memorial foi ‘cancelado’ e o acervo, vejam bem, foi devolvido à família, como se ali não contivesse algo tão importante para a cultura do Pará e da Amazônia. Isso tudo aconteceu no ano em que Belém receberá a COP-30, parece uma ironia histórica ou descaso? Como classificar a atitude da atual administração municipal? Tudo o que eu havia doado, documentos, fotos, quadros e livros também foi-me – mal menor? – devolvido. A chegada das caixas às minhas mãos foi para mim uma das maiores violências simbólicas sofridas no âmbito da cultura literária da Amazônia, em todos os tempos. E olha que não foram poucos os ataques que têm acontecido nos últimos 40 anos, tempo em que eu acompanho, de perto a área. Será que o prefeito eleito ouviu o aconselhamento de algum assessor, a sugerir ao neoliberal administrador da cidade que o Palacete Pinho tivesse destinação mais útil, pensando, inclusivamente, nas vitrinas da COP-30?

E foi assim, de um modo estapafúrdio, que Bruno de Menezes e seus amigos da Academia do Peixe Frito foram invisibilizados pelo poder municipal emergente. Pelo que se percebe, o neoliberalismo não suporta cultura, sobretudo se ela vier das periferias pretas, “cabocas” e indígenas, e constituir uma contestação das culturas brancas e hegemônicas, que adoçam o gosto das elites (Belém, 07 de setembro de 2025).

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