A rua se encheu de revolta, mas com alvo certo: o parlamento que legisla de costa para o povo – Imagem: CUT/Divulgação
O povo, com suas bandeiras diversas e multicoloridas, deu o ar de sua graça. A esquerda finalmente tomou as ruas contra as ameaças do golpe continuado. E agora?
Por Aldenor Junior
A confissão partiu de alguém insuspeito: “Essa PEC, para mim, é a PEC da sobrevivência, não a PEC da impunidade”. O autor do sincericídio é o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Sem querer, ele traduziu o que no fundo pode explicar a megaoperação deflagada pelo Centrão e pelo PL para aprovar a toque de caixa, na última terça-feira, 16, a chamada PEC da Blindagem, melhor denominada nas redes e nas ruas por PEC da Bandidagem, por ser uma das mais asquerosas demonstrações de desprezo com a opinião pública.
A manobra foi desde sempre foi arriscada. O fator repúdio social deve ter sido considerado pelos cardeais do bolsonarismo e de seus cúmplices do Centrão, mas a urgência em fechar o flanco diante das dezenas de investigações da PF e do STF deve ter falado mais alto. Afinal, segundo o Estadão, pelo menos 108 parlamentares – a grande maioria de deputados federais – responde atualmente a inquéritos policiais ou a ações penais no Supremo por suspeita de desvios bilionários de recursos das emendas impositivas, principalmente. Como grande parte dessas investigações ainda corre sob sigilo, é impossível saber quantos mais estão envolvidos.
Quem acompanha de perto a vida do Congresso sabe que talvez a maioria dos deputados e senadores, com maior ou menor grau de participação, pode acabar flagrado em algum tipo de malfeito. É decorrência direta do extraordinário crescimento do naco do orçamento público que passou a ser dominado pelo Congresso, desde 2015. De menos de R$ 5 bilhões naquele ano, essa cifra foi multiplicada por mais de dez, em 2025, com mecanismos mais frouxos e de total opacidade na destinação. O valor total de emendas impositivas a serem liberadas neste ano alcança R$ 61,7 bilhões, segundo revelou o Valor Econômico.
Uma nova onda de investigações, portanto, aparece como forte ameaça. E isso tudo podendo desabar às vésperas do próximo pleito, com o condão de embaralhar todas as peças no tabuleiro. O remédio encontrado foi retornar ao status legal anterior a 2001, quando a autorização prévia para processar parlamentar era prerrogativa do plenário. O que os defensores da lambança não falam é que, de 1988 até 2001, mais de 250 processos deixaram de ser autorizados. É a criação de uma casta de cidadãos de 1º classe que os parlamentares querem recriar, à luz do dia e dando de ombros à reação popular.
O caso mais famoso de impunidade foi o que envolveu o deputado Hildebrando Pascoal, então da bancada do PFL do Acre, acusado de liderar uma máfia naquele estado e de assassinar seus desafetos com requintes de crueldade, cortando seus corpos com motosserra. Nesses mais de 24 anos, quantos Hildebrandos podem se abrigar na zona de conforto de um mandato parlamentar? Certamente, a cada eleição, o país elege um parlamento pior que o anterior, assim como a penetração do crime organizado e das mega facções é uma realidade que ninguém pode negar.
Ocorre, então, que o povo entrou em cena para por água no chope de suas excelências. As multitudinárias manifestações deste domingo, 21, deram o recado que haverá uma resistência muito forte diante do descalabro legislativo. A PEC da Blindagem e a anistia (sob diferentes disfarces) foram os principais alvos dos protestos que ocorreram em todas as capitais e em dezenas de outras cidades pelo Brasil afora. Lideradas pelos partidos de esquerda, mas contando com o engajamento dos movimentos sociais e do segmento cultural, as manifestações não deixaram dúvidas sobre a disposição de parcelas da população de voltar a disputar as ruas, até então monopolizadas pela presença da extrema-direita bolsonarista.
Os próximos passos serão decisivos. O Senado deve barrar a PEC da Blindagem, pelo menos é esse o cenário mais provável. Já a anistia aos golpistas, espertamente transvestida de revisão das penas, o tal projeto da dosimetria, pode avançar e pior ainda, abre-se uma janela de oportunidade para os bolsonaristas e grande parte do Centrão bancarem um destaque na votação do relatório do deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), aprovando uma anistia ampla, que livre Bolsonaro e seus asseclas das penas que o STF acaba de decretar.
Esse é o plano que está em andamento, tendo o presidente da Câmara, o deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), como peça-chave. Sem uma pressão social ainda mais intensa, que aumente a denúncia da manobra em curso, o desenlace desfavorável às forças democráticas e de esquerda, em franca minoria na Câmara, pode ocorrer nos próximos dias.
A potência das manifestações populares não pode se esgotar em apenas uma única jornada. É fundamental que tenham energia para um combate que se desenha bastante duro e prolongado. O futuro da frágil democracia brasileira que está em jogo.








