Ação da Polícia na zona rural de Paragominas. Foto: Ag. Pará/Divulgação
A nova edição do estudo Cartografias da Violência na Amazônia 2025 expõe um quadro alarmante de violência contra a mulher na região amazônica, onde fatores como isolamento geográfico, presença de economias ilegais, avanço de facções criminosas e falhas do Estado ampliam dramaticamente a vulnerabilidade feminina.
Os dados mostram que a Amazônia Legal registra taxas superiores às médias nacionais de homicídios femininos e feminicídios, atingindo principalmente mulheres que vivem em municípios rurais, intermediários e áreas de floresta. Nesses territórios, a combinação entre desigualdade social, baixa presença do Estado e impunidade formam um ambiente extremamente hostil à sobrevivência das mulheres.
Segundo o estudo, a taxa de homicídios femininos chega a 6,1 mortes por 100 mil mulheres em municípios intermediários, 47,5% acima da média da própria Amazônia, e muito superior ao índice nacional. No total da região amazônica, os feminicídios também superam a média brasileira: 1,6 por 100 mil, contra 1,4 no país.
Pará tem uma das maiores incidências da região
O Pará aparece entre os estados mais críticos. Em 2024, registrou 178 homicídios femininos, com taxa de 4,1 por 100 mil mulheres, redução em relação ao ano anterior, mas ainda uma das mais altas da Amazônia Legal.
O estado também contabilizou 50 feminicídios, com taxa de 1,2 por 100 mil mulheres. Embora ligeiramente inferior à média regional, o número preocupa pelo peso populacional e pela expansão de territórios marcados por conflitos fundiários, garimpo ilegal e atuação de facções.
Segundo o relatório, a violência contra a mulher no Pará não se limita às capitais e centros urbanos. Ela é mais intensa justamente em regiões rurais e de floresta, como áreas de garimpo no sudoeste, municípios intermediários de fronteira agrícola e cidades do estuário amazônico, onde a presença estatal é reduzida e dinâmicas ilegais se sobrepõem às instituições públicas.
Mulheres indígenas também enfrentam riscos específicos. As políticas previstas na Lei Maria da Penha nem sempre se aplicam adequadamente às realidades comunitárias, gerando um “vácuo de proteção”, agravado pela expansão de economias ilegais que avançam sobre territórios tradicionais.
Facções e garimpo ampliam exploração sexual e violência
O estudo também identifica o impacto direto da presença de facções criminosas e da economia do garimpo ilegal na violência de gênero. Em várias áreas do Pará, como regiões Kayapó, Munduruku e zonas de garimpo em Itaituba e Altamira, mulheres e meninas são submetidas a exploração sexual, escravidão por dívida e aliciamento. O corpo feminino se torna uma “moeda de controle” nas áreas dominadas por facções ou garimpeiros.
Os pesquisadores mostram que, onde há garimpo ilegal ativo, ocorre também aumento de violência sexual, tráfico de mulheres e punições impostas por facções, sobrepondo crime organizado, degradação ambiental e violação de direitos humanos.
Ausência de políticas adaptadas aprofunda vulnerabilidade
Um dos pontos mais fortes do estudo é a crítica ao modelo de atuação do Estado: as políticas de enfrentamento à violência de gênero são urbanas, ocidentalizadas e não dialogam com a diversidade cultural e territorial amazônica.
Isso gera um abismo entre o que o Estado oferece e o que as mulheres realmente precisam, principalmente em comunidades tradicionais, ribeirinhas e aldeias indígenas. Na prática, o aparato legal muitas vezes não alcança essas mulheres, ampliando a subnotificação e a sensação permanente de desamparo.
Um alerta para o país
O estudo conclui que a violência contra mulheres na Amazônia é uma expressão de múltiplas crises: ambiental, territorial, social e institucional. No caso do Pará, a combinação entre conflitos agrários, expansão de facções, avanço do garimpo e ausência de políticas culturalmente adequadas coloca mulheres, especialmente indígenas, ribeirinhas e jovens, entre os grupos mais vulneráveis do Brasil.
O cenário apresentado transforma a violência de gênero em um indicador urgente da fragilidade ambiental e social da região, e um chamado para que políticas de proteção considerem a complexidade amazônica em todas as suas dimensões.








