Com a imprensa paraense amordaçada como nunca estivera, o grupo que monopoliza o poder e o exerce com mãos de ferro imagina que pode tudo. Até violentar servidores à luz do dia e impor seu pacote de maldades numa Câmara de Vereadores dócil e servi. Será mesmo? Foto: Reprodução
Por Aldenor Junior – Lendo os dois jornais impressos que circulam na capital paraense – O Liberal e o Diário do Pará -, a impressão que fica é que a quarta-feira, 17, transcorreu em meio a uma modorrenta normalidade.
Definitivamente, não foi isso que aconteceu. Ou será normal ter o prédio da Câmara Municipal cercada por forças policiais e ter seu interior – inclusive plenário e corredores de acesso – além de todo o entorno externo, tomado por gás de pimenta, disparados de balas de borracha – que algum infeliz resolveu denominar de “não letais” – e muita pancadaria sobre o lombo indefeso de servidores públicos municipais, que apenas exerciam seu direito democrático a reagir diante da manobra sórdida da gestão do MDB. A razão da revolta: o “prefeito” Igor Normando, o ajudante de ordens do governador Helder Barbalho, enviara na véspera um pacotaço de 13 projetos para estuprar um conjunto de leis que há décadas protegem os direitos dos servidores – fazendo sem anestesia o que os neoliberais chamam de “ajuste na despesa” – e, ao mesmo tempo, impondo um super aumento nos tributos municipais, especialmente no IPTU de 2027.
Houve muita gente machucada pela truculência barbalhiana. A mesa da Câmara apenas cumpriu o triste papel de jagunço do Executivo. Mas, parece, que fez isso com gosto: afinal, mandar cortar o ar-condicionado de uma galeria superlotada de servidores e ainda orientar um vereador-pistoleiro a chamar a multidão de “vagabundos”, ultrapassou todos os limites da canalhice. Esse foi o estopim do conflito e deu vazão às cenas de tiro, porrada e bomba. Tudo feito para esvaziar a Câmara das centenas de manifestantes que a sitiavam, e assim impor por horas a fio seguidas derrotas à combativa bancada do PSOL – formada por Marinor Brito e Vivi Reis – que, mesmo diante da violência, impuseram uma resistência tenaz, obrigando a bancada governista a permanecer no plenário até o amanhecer de hoje, 18.
A elegante e milionária mordaça
Se há algo que caracteriza a política paraense ao longo dos séculos é a polarização. E a imprensa sempre foi o espelho dessa disputa aguda – e não raro, sangrenta – entre os diversos grupos que se revezavam no poder. Foi assim desde os primórdios, nos anos 1820, quando surgiu nosso primeiro e rebelde periódico, O Paraense, de Felippe Patroni. E seguiu nas disputas acaloradas entre os baratistas (que tinham no antigo O Liberal seu porta-voz) e os anti-baratistas, armados pela verve ácida e certeira da Folha do Norte, liderada por anos pelo incontrolável Paulo Maranhão.
Nos tempos mais contemporâneos, desde a primeira eleição direta para governador, em 1982, essa guerra passou a ter como atores os herdeiros da ditadura com o novo O Liberal dos Maiorana e o Diário do Pará, nascido para ser o instrumento do ascendente grupo oposicionista da família Barbalho, tendo eleito o jovem Jader como governador naquele mesmo ano. Isso, porém, já é passado. Desde 2019, quando Helder assume seu primeiro mandato, uma hábil política de pressão e distribuição farta de verbas publicitárias sequestrou de vez o outrora poderoso O Liberal, fazendo dele um instrumento de propaganda ainda que de baixa credibilidade. Sobre o Pravda, opa, Diário do Pará, credibilidade nunca foi um ponto a merecer destaque. Esse jornal serve como ferramenta de imposição dos ditames do grupo que se encastelou no poder e que pretende manter e ampliar esse domínio para todo o sempre, amém.
Esse seria o plano perfeito. O crime perfeito, aliás. Só que faltou combinar com as redes sociais, que passaram o dia vocalizando o protesto diante da violência das tropas de choque do esquema Igor & Barbalho. Nelas pode-se ver servidores sangrando, com a cabeça partida pelos cassetetes da Guarda Municipal. Pode-se ver a correria e o desespero de servidoras municipais colhidas em meio à violência que não respeitou quem quer que fosse. Com a selvageria, pretende-se impor um novo normal, com os protestos populares sendo tratados como caso de polícia. Estilo República Velha, ou será que a escolinha do minúsculo Hugo Motta recrutou muitos alunos na Mesa Diretora da parlamento-mirim da capital paraense?
Haverá uma resposta política ao abuso e atropelo que se viu no Poder Legislativo municipal. É óbvio que apostam na tal memória de peixe que marcaria boa parte do eleitorado. O escândalo de ontem irá se diluindo com o tempo até virar pó. Para isso, claro, contam com a cumplicidade da imprensa e de toda a estrutura de poder que controlam. Só existe um remédio capaz de neutralizar a manobra desses espertalhões: amplificar a denúncia e repúdio nas redes, expondo face pusilânime de todos eles, para que o assunto não morra tão cedo. Afinal, sangrar o orçamento de centenas de milhares de famílias, das periferias e do centro, com a derrama fiscal para 2027, não ficará impune. E ainda restará bater às portas da Justiça. Na pressa, como sempre, pisotearam as leis, crendo que está tudo dominado. Será mesmo?
Quem sobreviver a esses tempos turvos, verá.
Aldenor Junior é jornalista.








