Contumaz ilusionista, o prefeito Igor Normando (MDB) voltou ao ataque nas redes sociais, desmentindo categoricamente que pretenda aumentar o IPTU. Ao contrário, promete reduzir o imposto. Há quem acredite nessa lorota. Imagem: Gerada por IA
por Aldenor Junior
“Pior é uma verdade diminuída, que uma mentira mui declarada; porque a verdade diminuída na essência é mentira, e tem aparências de verdade; e mentiras que parecem verdades, são as piores mentiras de todas”.
Padre Antônio Viera, Belém, século XVII
Leia com atenção as frases a seguir e depois faça seu juízo de valor:
“Não haverá aumento da tarifa de ônibus em Belém”.
“O programa Bora Belém será mantido e ampliado”.
“É mentira que haverá aumento de IPTU em Belém”.
O autor é o mesmo, as circunstâncias são diversas, mas o objetivo é idêntico: ludibriar, iludir, engabelar. Dito de forma mais simples e objetiva: passar a perna nos trouxas, mentindo na cara dura, sem tremer as células do bem cuidado rosto de galã de novela turca (já se foi o tempo em que os canastrões mexicanos arrancavam suspiros das jovens donzelas). Igor Wander Centeno Normando, eleito prefeito de Belém em 2024 pelo MDB de seu primo e tutor, Helder Barbalho, tem se especializado no mister de mentir em público, empenhando a palavra em promessas que facilmente são quebradas a seguir, sem que ele precise se explicar– até porque conta com a couraça de aço de proteção de uma mídia dócil e servil.
Vamos, porém, aos fatos. E estes são eloquentes, maiúsculos, irrefutáveis. Igor, que funciona como uma espécie de despachante de luxo do governador, vez por outra, precisa abandonar o TikTok para ensaiar, na frente das câmeras, o papel de prestidigitador. Com agilidade nas mãos, fará sumir as cartas ou as esferas coloridas, deixando a plateia boquiaberta. Desta feita, a missão é clara: ele precisa convencer que o PL assinado por ele e aprovado entre tiros, porrada e bombas pela bancada que lhe dá sustentação na Câmara Municipal, na madrugada de quinta-feira, 18, é, na verdade, uma proposta para reduzir o IPTU dos munícipes, ampliando a faixa de isenção dos atuais (e algo escandalosos, diga-se) 40% para inacreditáveis 70% dos imóveis da cidade. Um detalhe desmonta a farsa: não há uma única vírgula no projeto que diga nada parecido com isso.
Qual prefeito de uma capital metropolitana que há décadas vivencia um processo doloroso de perdas de receitas e de dificuldade estrutural de equilibrar suas contas que teria a coragem de enviar, literalmente na calada da noite e na surdina, um projeto para reduzir receitas? Claro que isso é uma estultice sem tamanho. A proposta de Igor e Helder possui um único e declarado objetivo: atualizar a chamada Planta Genérica de Valores (PGV) e através dela reajustar o valor venal que serve de base para a cobrança do principal tributo do Município, o IPTU.
Nessa alquimia entrarão fórmulas matemáticas complexas, com atualizações a partir de critérios do mercado imobiliário e das melhorias realizadas pelo poder público nas diversas regiões da cidade, notadamente nas periferias e áreas que mesmo próximas do centro sempre foram habitadas pela população mais vulnerável e de menor renda, as baixadas de Belém. Alguém em sã consciência imagina que desse caldeirão malcheiroso sairá um imposto menor, beneficiando os mais pobres?
Rompendo o silêncio
Se houvesse boa-fé, a gestão do MDB teria enviado o projeto de revisão do IPTU ao longo do ano legislativo, após amplas consultas em audiências públicas e tendo ouvido todos os segmentos econômicos que potencialmente serão afetados. Incluir a matéria no pacotaço de final de ano, misturada com outras proposições que pretendem surrupiar conquistas históricas do funcionalismo e impor uma tunga salarial perversa, já é suficiente para revelar que se tratou de um jogo de esperteza. Contavam com a natural desmobilização da sociedade nas vésperas das festas natalinas para aplicar o golpe. Mais uma vez, desconsideraram que onde há prepotência dos de cima, sempre haverá os que resistem. Não deu outra: houve protestos, tanto dos sindicatos quanto da combativa bancada de oposição liderada pelas parlamentares do PSOL, Marinor Brito e Vivi Reis, e isso impediu que a cortina de silêncio encerrasse o assunto.
Diante da reação negativa nas redes e nas ruas, o prefeito teve ainda tempo de gravar um vídeo antes de partir para suas férias fora do país. Deflagrou-se um operativo na mídia amiga (e bem paga) para espalhar a lorota de que o novo IPTU seria um case de sucesso de justiça tributária. Apressaram-se a divulgar uma cartilha com perguntas e respostas que de tão ingênuas beiram à falta de letramento. Mais do que convencer, almejam confundir. Se deixarem parte da população em dúvida, já estarão no lucro.
Os servidores realizaram uma concorrida assembleia e em meio a gritos de “Fora Igor” anunciaram greve geral a partir de janeiro. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PA), que tradicionalmente se mobiliza diante desse tema, também iniciou a análise das matérias e tende a entrar na briga. Imagina-se que outros segmentos já devem estar se mexendo. Afinal, sabem que da cartola de Igor não há hipótese que não se assemelhe a uma violenta derrama fiscal, com aumento de impostos muito acima da inflação, certamente inflado pela gana em arrecadar em escala selvagem no ano que antecederá às próximas eleições municipais. A classe média não costuma ter um comportamento suicida, mesmo quando tem suas simpatias com os péssimos atores do House of Cards da política paroara.
*Aldenor Junior é jornalista








