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O avanço acelerado da esporotricose em Belém revela uma crise silenciosa de saúde pública e de saúde animal que vem sendo subestimada pelo poder público. Apenas em 2025, a capital paraense registrou 1.547 casos da doença em gatos e 169 em humanos, números que representam um aumento alarmante de 172,4% entre felinos e 108% entre pessoas em relação a 2024. Em dois anos, os registros praticamente se multiplicaram por sete entre animais, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma).

A esporotricose é uma doença fúngica que provoca lesões na pele, principalmente em gatos, e pode ser transmitida aos humanos por meio de arranhões, mordidas ou contato com secreções de animais infectados. Embora seja tratável, o crescimento exponencial dos casos indica falhas graves na prevenção, no diagnóstico precoce, no atendimento veterinário e na integração entre políticas de saúde humana e animal em Belém.

A escalada da doença ocorre justamente no momento em que o Ministério da Saúde reforça o alerta nacional. Diante do aumento expressivo de casos no país, especialmente aqueles associados à transmissão zoonótica, o órgão incluiu a esporotricose humana na Lista Nacional de Notificação Compulsória, tornando obrigatória a comunicação semanal dos casos confirmados ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), tanto na rede pública quanto na privada. A medida busca dar visibilidade real ao problema e orientar políticas mais eficazes de vigilância, prevenção e assistência no SUS.

Para o Ministério da Saúde, a notificação compulsória é fundamental para construir um panorama epidemiológico consistente e subsidiar decisões em todos os níveis de gestão. No entanto, em Belém, os números crescentes levantam questionamentos sobre a capacidade do município de transformar dados em ações concretas. A ausência de uma política robusta de controle populacional de gatos, de acesso amplo ao tratamento veterinário e de campanhas permanentes de educação em saúde contribui para a manutenção de um ciclo de transmissão que afeta tanto animais quanto pessoas, especialmente em áreas mais vulneráveis.

As orientações nacionais são claras: a prevenção da esporotricose exige guarda responsável dos animais, restrição da circulação de gatos em áreas externas, atendimento veterinário imediato diante de sinais suspeitos e cuidados específicos no manejo de animais doentes. Em ambientes de trabalho, como jardinagem, agricultura e construção civil, o uso de equipamentos de proteção individual e medidas coletivas de prevenção também são indispensáveis.

O Ministério da Saúde destaca que o enfrentamento da esporotricose deve seguir o princípio de Uma Só Saúde, integrando saúde humana, saúde animal e meio ambiente. Isso implica articulação efetiva entre vigilância epidemiológica, vigilância de zoonoses, atenção primária, saúde do trabalhador e políticas ambientais. Em Belém, o crescimento descontrolado dos casos sugere que essa integração ainda está longe de se concretizar.

Veja os números de casos em Belém nos últimos anos

2023 – 223 felinos e 37 humanos
2024 – 568 felinos e 81 humanos
2025 – 1547 felinos e 169 humanos
Fonte: Sesma

Tratamento

O tratamento da esporotricose é feito principalmente com medicamentos antifúngicos, tanto em humanos quanto em animais, e costuma ter boa resposta quando iniciado de forma precoce. Nos gatos, o acompanhamento veterinário é fundamental, pois o tratamento pode ser prolongado, durando semanas ou meses, e exige cuidados rigorosos no manejo do animal para evitar a transmissão. Em humanos, o atendimento ocorre pelo SUS, com avaliação clínica e, quando necessário, confirmação laboratorial. A eutanásia não é a regra e só é indicada em situações extremas, quando não há possibilidade de tratamento ou em casos graves e irreversíveis, conforme orientações do Ministério da Saúde e das autoridades sanitárias.

Orientações do Ministério da Saúde sobre prevenção de esporotricose

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