Foto: Casa Branca

Por Aldenor Junior

Definitivamente, vivemos tempos distópicos. É a verdade, produto que sofre terrível escassez, quando a primeira bomba de mais uma guerra produz seu impacto de chamas e destruição.

George Orwell, em seu 1984, imaginou um mundo espelhado, onde nada era o que parecia ser. Sinais invertidos no ambiente irrespirável de um estado totalitário. Na ficção, o Ministério da Verdade (Miniver), espalhava por todos os cantos os três lemas do Partido:

GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
IGNORÂNCIA É FORÇA

Reflitamos sobre essas consignas orwellianas. E substituamos o Grande Irmão, arquétipo do ditador onipresente e onipotente, por um presidente da maior potência militar do planeta, em segundo mandato, disposto a impor sua cartilha pela força das armas (toneladas de explosivos mortíferos e de mentiras convenientemente deglutidas por quase toda a mídia empresarial e pelos algoritmos das bigtechs globais).

Donaldo Trump ama a guerra. Quando fala em paz todos precisam ouvir e entender o contrário antagônico disso. Seu Conselho da Paz, para além de ridículo, espelha essa realidade de falência dos organismos multilaterais, com a ONU à frente, reduzidos à completa insignificância.

Somente nos primeiros dois meses de 2026, os EUA agrediram militarmente a Venezuela, sequestraram seu presidente e recrudesceram o imoral e ilegal bloqueio a Cuba. E, agora, desde o sábado, 28, iniciaram em conjunto com Israel uma campanha militar contra o Irã, em proporção suficiente para causar uma escalada bélica em todo o Oriente Médio, com potencial para rivalizar com os piores momentos vivenciados durante as guerras do Golfo, nos anos 1990 e 2000.

Afinal, os EUA assassinaram um chefe de Estado em pleno exercícios de suas funções (pouco importa aqui a natureza do regime iraniano, uma teocracia violenta contra seu povo, tal qual a maioria dos estados do Golfo, todos aliados dos EUA). A eliminação da cúpula governante do Irã (cerca de 40 dirigentes e chefes militares de alta patente) não levará à rendição da República Islâmica, muito pelo contrário.
Trump acendeu o pavio e parece estar satisfeito com o resultado. Quanto mais caos provoque, melhor (para seus interesses internos e externos). Mas, que ninguém duvide, o cenário é instável e muitos desfechos podem acontecer, tornando a ambiente geopolítico um espaço mais perigoso e letal, sem que existam freios e contrapesos capazes de deter a sanha neoimperialista do complexo industrial militar estadunidense.

O preço do sangue
Toda guerra é muito suja e cruel. As guerras de agressão, de corte colonial como esta iniciada por Trump, é ainda muito mais abjeta, imoral e genocida. O povo do Irã já está pagando um elevado preço. Afinal, será que alguém considera uma escola infantil como “alvo legítimo”? Pois bem, 165 crianças iranianas foram despedaçadas por bombardeios combinados dos EUA e de Israel, na manhã do último sábado. São pequenos e inocentes mártires a compor uma enorme legião de vítimas indefesas e descartáveis, Elas fazem companhia às dezenas de milhares exterminadas em Gaza nos últimos anos e sabe-se lá quantas ao redor do mundo (mortas também pelas armas da fome, doenças evitáveis e desmonte das mínimas estruturas de socorro aos mais vulneráveis).

O mundo assiste a tudo bestificado. A questão é que um ambiente mundial dominado por essa casta de supremacistas não se deterá se não for forçada. Cabe ao povo norte-americano e às forças democráticas de todos os continentes a tarefa de resistir erguendo uma barreira no caminho dessa marcha da insensatez.

Aldenor Junior é jornalista.

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