PF dá incerta na saída de banco e prende suspeitos de desviar R$ 500 mil de empresa contratada pela Fundação Cultural do Pará (FCP) – Foto: divulgação

Por Aldenor Junior

Não procure esta notícia nos grandes jornais paraenses. Muito menos nos canais de TV ou nos portais a eles associados. Nada. Silêncio total. Era como se não houvesse acontecido. Mas, como veremos, aconteceu e, infelizmente, esteve longe de ser um caso inédito ou isolado. Trata-se, isto sim, de manifestação de certo modus operandi que faz do reinado do clã que domina o Pará um paraíso para malfeitos de todos os quilates.

Vamos aos fatos: alertada pelo sistema de controle de movimentação financeiras, a Polícia Federal deu uma batida, nesta segunda, 16, na saída de uma agência do Banco do Brasil, em Belém. Haveria um saque atípico, em volume de meio milhão de reais. Isto mesmo: meio milhão sacados na boca do caixa. Com a dinheirama, os policiais flagraram e detiveram em flagrante o empresário Felipe Linhares Paes e dois outros homens que o acompanhavam, Ronaldy Ryan, que admitiu depois ser apenas um “laranja” e, mais importante, Michel Silva Ribeiro, assessor lotado na Casa Civil do governador Helder Barbalho (MDB) e apontado como sendo genro do deputado federal Raimundo Santos (PSD), aliado de primeira hora do governo estadual.

Ligando os pontos para que não reste a menor dúvida acerca das (más) intenções dos envolvidos: a tal empresa que achou por bem trabalhar com dinheiro vivo, sacando R$ 500 mil em espécie, mantém contratos com o governo do Estado, através da Fundação Cultural do Pará (FCP). Deveria ser um órgão de fomento e promoção de ações culturais, mas pode ter se transformado em uma gigantesca lavanderia de recursos públicos , que após uma breve parada na conta de fornecedores, seriam desviados para os chefes dos esquemas políticos que aparelham o órgão.

Sigam o dinheiro

Há poucos meses, assessores do deputado federal Antônio Doido (MDB, é claro) foram detidos pela PF fazendo saques milionários. Nas vésperas do primeiro turno, inclusive, a bolada era de R$ 5 milhões, devidamente guarnecidos por uma estrutura de segurança clandestina formada por praças e oficiais da Polícia Militar (todos pagos pelos cofres públicos e em evidente desvio de função).

Agora, é a turma do evangélico Raimundo Santos que foi alcançada pelo braço da lei. Está longe, muito longe, de ser mera coincidência que o atual titular da FCP seja da quota pessoal do deputado do PSD. Ao receber a indicação para este órgão e nomear Thiago Miranda, deram a chave do cofre e, aparentemente, uma licença para que fizesse “política”, na pior acepção da palavra.

Porém, para não praticar injustiça, certamente esse sub-esquema de corrupção está longe de ser o mais importante em operação nas franjas do poder da família Barbalho. É algo secundário, mas nem por isso menos deletério e criminoso.

Uma pergunta inconveniente: por onde andam os operosos membros do Ministério Público do Pará que ainda não enxergaram as falcatruas realizadas com o orçamento da FCP ? Uma investigação por amostragem nos convênios de subvenção cultural, muitos tendo como fonte as emendas dos parlamentares da Alepa e mesmo como mecanismo de compensação dos valores transferidos ao Estado pelos deputados federais da base, pode revelar coisas escabrosas. Muitos milhões, muitos políticos se lambuzando como se não houvesse amanhã.

Já está passando da hora de uma faxina na entranhada prática patrimonialista que domina o Pará (e, certamente, nove em cada dez prefeituras). O que não é defensável é essa prática caolha, de investigar apenas os inimigos do rei (muito embora, em grande medida, possam não ser modelos de probidade e zelo com o patrimônio público).

Aldenor Junior é jornalista

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