A incrível odisseia de um boto cor-de-rosa sugado pela cidade de lama. Foto: Vídeo reprodução
Por Aldenor Junior
Foi o boto, sim.
Era um boto cor-de-rosa fêmea. E sua beleza (e sua gana de viver) despertou a cidade de pedra e de lama.
Cadê aquele rio que passava por aqui?
Seus braços, suas veias abertas, sua respiração feito sonho de bichos e de gentes?
Era um rio, muitos rios.
Por sobre suas águas, outrora vivas, ergueram uma cidade.
Paredes de concreto onde o verde gritava, pulsação que parecia não ter fim.
Suas margens, todas as margens, eram povoadas por infinitas gentes.
Incontáveis bichos, na terra, na água, no céu.
Por suas águas, botos bailavam, livres, leves, soltos, sem pedir licença para ninguém.
Perdido no destempo, o boto cor-de-rosa se perdeu na intricada rede de rios e igarapés.
A maré o empurrou cidade adentro.
Foi parar, prisioneiro da imundice, num canal da cidade – de pedra e lama – que um dia foi a Mairi, aldeia velha, esquina de encontros de nações orgulhosas, penas ao vento, flechas cobrindo o céu em glória aos que vieram antes.
O boto cor-de-rosa nadou cidade adentro.
Nadou até que o ar lhe faltasse e suas forças dessem sinais de colapso.
Não existe metáfora mais cruel do que essa: um boto cor-de-rosa lutando pela vida e os esforços de uma sociedade que se mobiliza para salvá-lo.
Somos o boto ou somos as margens fétidas que o aprisionaram?
Foi boto, Sinhá
Senhoras e senhores, respeitável público, foi o boto e em sua calda ele nos trouxe uma mensagem.
Feito garrafa lançada ao mar, o boto cor-de-rosa desvelou um passado de destruição, lançando um alerta.
Mas, insisto, engana-se que ele foi somente um profeta a nos lembrar que há uma hecatombe ambiental se aproximando.
O boto cor-de-rosa, que lutou tanto pela vida, quis escrever um recado para o futuro, como promessa, como possibilidade.
Sua beleza, misto de encantamento com uma feroz vontade de sobreviver, acende uma chama.
O futuro não precisa ser a confirmação de vaticínios trágicos.
O boto cor-de-rosa se ergueu como promessa.
Haverá um dia em que os rios renascerão.
E a humanidade, imperfeitamente humana, se reencontrará com seu destino.
Viver e deixar viver, no gigantesco banquete da alegria que virá.
Aldenor Junior é jornalista.








