A PF acordou o líder do Centrão e presidente nacional do Progressistas, senador Ciro Nogueira, na 5ª fase da Operação Compliance Zero, na manhã de ontem, 7. Pela primeira vez, as investigações miraram o núcleo político da trama bilionária. Resta saber se a fila irá andar e atingir toda a cúpula do Congresso, inclusive o intocável Davi Alcolumbre.(Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

Por Aldenor Junior

Quem é rico mora na praia
mas quem trabalha nem tem onde morar
Quem não chora dorme com fome
mas quem tem nome joga prata no ar

Fagner

Não é todo dia que o andar de cima amanhece com a polícia na sua porta. Menos ainda quando se trata de um determinado tipo da elite política, lastreado no sequestro das instituições representativas, e crente de ter se constituído numa espécie de casta de intocáveis da República. É isto, em síntese, que define a turma do Centrão, esse bloco político-partidário que mais se assemelha à ‘Ndrangheta e suas congêneres espalhadas pelo mundo.

O todo-poderoso senador piauiense Ciro Nogueira, presidente nacional do Progressistas, sentiu o gosto amargo de ser alcançado – ainda que de uma maneira leve – pelo longo braço da lei. Não há notícias de que os policiais federais tenham posto abaixo a gigantesca porta de sua mansão no Lago Sul, em Brasília.

Também não se falou em nada parecido com a abordagem que a polícia faz nos casebres das comunidades Brasil afora, onde, reza a lenda, estaria incrustrado o crime organizado. Ao contrário, tudo foi realizado da maneira mais civilizada e legal possível, o que não empanou o escândalo: o prócer do Centrão está envolvido até o último fio de cabelo no maior escândalo de golpe financeiro da história recente do país.

Daniel Vorcaro, o banqueiro-meliante que armou a pirâmide Master, definiu Ciro Nogueira como um “amigo de vida”. Mas, na verdade, o senador era tratado como um despachante muito bem pago, cujos serviços valeriam cada dólar investido. E, claro, estamos falando de milhões, como convém ao seleto grupo de parlamentares que se especializou na função de milícia legislativa para o grande capital.

Mesada de R$ 500 mil, contas milionárias em cartão de crédito, hospedagem em hotel de luxo em Nova York com diária acima de R$ 130 mil, tudo isso deve ser parte pequena do propinoduto que vinculou o líder da oposição ao esquema Master. Deve gerar escândalo e repulsa social, mas não qualquer tipo de surpresa. Esse é o padrão, desgraçadamente. E Ciro Nogueira está a léguas de ser espécime único nessa megafauna criminosa.

Parceiro radioativo

Flávio Bolsonaro sentiu o golpe. E não foi um simples tapa na cara. Afinal, quem era o mais cotado para ocupar o cargo de vice na chapa do representante da extrema-direita? Sim, era Ciro Nogueira, com as bênçãos de Antônio Rueda, do União Brasil e de Valdemar da Costa Neto, do PL.

Agora, o filho 01 precisou ensaiar uma correção de rota, mas a margem de manobra é bem estreita.

É missão quase impossível para o bolsonarismo demonstrar distância de Ciro Nogueira. O senador pelo Piauí foi ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro e, junto com Arthur Lira foi autor intelectual da farra do orçamento secreto, entre outras trapaças e crimes a granel. Jogá-lo ao mar? Seria uma imprudência perigosíssima.

Restou uma declaração troncha, sem citar nomes, mas revelando que essa última fase da investigação do escândalo Master trouxe fatos “muito graves” e que merecem uma apuração com “rigor e transparência”. Sim, uma declaração acaciana que apenas revela o enrosco em que a direita está metida.

Quem não tem dormido tranquilo, imaginando ser o próximo alvo, é outro supostamente intocável: o senador Davi Alcolumbre, não por acaso pela União Brasil do Amapá. Após ter protagonizado na semana passada duas das mais vergonhosas páginas do parlamento nacional – a recusa pelo Senado do nome de Jorge Messias ao STF e a derrubada pelo Congresso do veto integral de Lula ao PL da malfadada Dosimetria – eis que surgem na imprensa notícias que Alcolumbre quer conversar com o Planalto e reatar as relações. Troféu cara de pau, sem dúvida.

Por trás dessa manobra de última hora, tem-se como certo que Davi Alcolumbre e de outros tantos cardeais do Centrão, mais cedo ou mais tarde, ganharão holofotes na medida em que avancem os trabalhos da PF e da, até agora pelo menos, correta condução do ministro André Mendonça (contrariando as previsões, já que se trata de um indicado de Bolsonaro à Suprema Corte).

O Brasil nunca foi para amadores. E nestes dias intensos, mais indispensável ainda é separar o joio do trigo. Para além das múltiplas cortinas de fumaça, desponta um sistema corrompido e corruptor. A sobrevivência da democracia por aqui depende de até onde o bisturi da Justiça está disposto a ir. Quem sobreviver, verá.

Aldenor Junior é jornalista. 

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