Flávio Bolsonaro, o filho 01, foi flagrado fazendo aquilo que mais sabe fazer: falcatrua e todo tipo de pilantragem. Ele é um mágico quando se trata de produzir truques do enriquecimento ilícito. Diante do escândalo, sua pré-candidatura entrou numa zona pantanosa onde tudo pode acontecer. Foto: Lula Marques/ Agência Brasil
Por Aldenor Junior
Flávio Bolsonaro é um cidadão de poucas luzes. Simplório, obtuso, pusilânime.
Herdou o pior do pai. Afinal, nunca houve a mais tênue possibilidade de algo positivo ter como origem a nefasta personalidade do ex-capitão, hoje presidiário, mas desde muito cedo um navegador nas águas tóxicas do fascismo nacional.
Porém, a pancada que o pré-candidato da extrema-direita levou durante todo o dia de ontem, 13, deixou-o zonzo, um lutador colapsado por um direto de esquerda no meio do rosto.
Flagrado em tenebrosas e milionárias transações com Daniel Vorcaro, ex-banqueiro bandido (e atualmente preso na cela da PF em Brasília), hoje sinônimo da patifaria do andar de cima, Flávio titubeou, sem saber ao certo como reagir.
Primeiro, negou, feito um Judas vestindo uma surrada camisa verde-amarela. Esbravejou contra a repórter do Intercept Brasil, veículo da mídia alternativa que trouxe à luz toda a trama. Seria tudo mentira, pois ele jamais havia pedido dinheiro ao banqueiro.
Horas depois e após muitas reuniões de um improvisado gabinete de crise na sede do PL, na capital federal, ele veio com a estorinha de sempre: sim, agora ele se lembrara, teve relações com Vorcaro, mas tudo não passou de um “filho” lutando por conseguir dinheiro “privado” para megaprodução internacional retratando a biografia de seu pai, o ex-presidente golpista. “Dark Horse”, cavalo negro, azarão, ou sabe-se lá qual título o tal filme nascido das entranhas da “guerra cultural” bolsonarista receberá em português.
De uma coisa não resta dúvida: os Bolsonaro gostam mesmo é de dinheiro. Dos outros, dos trouxas, dos que se deixaram capturar pelas malhas da dissonância cognitiva. O pedido de “patrocínio” para o suposto mecenas do banco Master alcançou a cifra fantástica e quase inacreditável de R$ 134 milhões, ou US$ 24 milhões à época. Nada mal quando se compara com os dois filmes brasileiros que recentemente fizeram carreira mundial: “Ainda estou aqui” (R$ 45 milhões) e “O agente secreto” (R$ 28 milhões).
É preciso ser um completo energúmeno para crer numa presepada dessas, mas, como se sabe, há perto de 40% dos eleitores brasileiros que, pelo menos até agora, consideram a possibilidade de sufragar nas urnas e entronizar no Palácio do Planalto em outubro um meliante desse quilate.
Me engana que eu gosto
Instalou-se o salve-se quem puder na seara da extrema-direita. Na medida em que mais detalhes da bandalheira de Flávio chegavam às manchetes, uns e outros aliados (ou quase inimigos) tentavam se descolar do naufrágio iminente.
A baixaria correu solta, inundando os perfis no X, demonstrando que o campo ultraconservador não estava preparado para o tamanho da explosão. Sobrou petardos em todas as direções. Romeu Zema, por exemplo, gritou bem alto que Flávio deu um “tapa na cara” da direita, numa atuação tão canhestra que deve ter feito chorar as milhares de senhoras que pegaram chuva e sol na frente dos quartéis imaginando que estavam cumprindo uma missão quase sagrada.
Mas o pior não custou a aparecer: os produtores do tal filme desmentiram qualquer relação com Vorcaro e suas empresas, dos quais não teriam recebido nenhum centavo.
Opa, essa é a declaração mais escandalosa do que as juras de amor fraterno entre Flávio e o ex-banqueiro, repetidas até na véspera de sua prisão, em novembro passado. Afinal, se a dinheirama não foi entregue aos produtores do filme, para onde foram parar os R$ 61 milhões? E pode ser muito mais. Essa é a quantia da qual se tem comprovação objetiva, mas a drenagem de recursos do Master (vale dizer, dos infelizes aposentados do Rio de Janeiro e do Amapá, além de milhões e milhões de correntistas que financiam o Fundo Garantidor de Crédito, lesado em pelo menos R$ 47 bilhões) pode ter alcançado cifras inimagináveis.
Flávio, Eduardo e outros tantos salafrários podem ter se utilizado do pretexto de financiar o filme para simplesmente roubar e roubar é o que sabem fazer com maestria. Está no sangue, como um DNA perverso.
Cabe à Polícia Federal (PF), sob a supervisão do STF, investigar com o máximo rigor, juntando todas as pontas do novelo e, como se diz, seguir o dinheiro, que, querendo ou não, sempre deixa rastros.
A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro subiu no telhado. Mas, fiquem todos avisados, não é do tipo de fruto envenenado que cai por si só. É preciso ventania para balançar esses galhos apodrecidos. As multidões precisam encher os pulmões e transformar as ruas no teatro da guerra contra os esquadrões da mentira e da necropolítica.
Aldenor Junior é jornalista.








