Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Por Levi Menezes

No marketing político, existe uma regra básica que separa campanhas profissionais de aventuras improvisadas: crise não se enfrenta no susto. Crise se antecipa, se prepara e se controla. Quando isso não acontece, o dano deixa de ser apenas narrativo e passa a atingir diretamente a confiança política, eleitoral e financeira em torno de uma candidatura.

Foi exatamente isso que aconteceu no episódio envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e os áudios enviados ao empresário Daniel Vorcaro.

O problema não foi apenas o conteúdo revelado. Em política, quase sempre o estrago maior vem da condução posterior. E o principal erro estratégico apareceu no momento em que Flávio primeiro negou ter pedido dinheiro ao empresário e, depois, foi obrigado a admitir o pedido após a divulgação dos áudios.

A partir dali a crise deixou de ser apenas sobre um áudio comprometedor. Passou a ser sobre credibilidade.

Em campanhas eleitorais modernas, especialmente presidenciais, transparência interna é um ativo indispensável. Nenhuma equipe de comunicação consegue construir uma estratégia eficiente quando o próprio candidato omite informações sensíveis ou impede que seu entorno conheça previamente o tamanho da crise que está prestes a explodir.

O ponto mais grave do episódio talvez esteja exatamente aí: a aparente falta de alinhamento entre o pré-candidato e sua estrutura política e de marketing. Se os áudios seriam vazados, ou havia qualquer possibilidade concreta disso ocorrer, o mínimo esperado era que a equipe estivesse preparada para reagir com rapidez, coerência e unidade narrativa.

Não foi o que aconteceu.

A negativa inicial, seguida da admissão posterior, criou o pior cenário possível em comunicação de crise: a percepção pública de recuo. E em política, recuar em meio a uma crise raramente significa apenas mudar de versão. Significa transmitir insegurança, desorganização e perda de controle.

No ambiente digital, onde a velocidade da informação atropela qualquer tentativa tardia de correção, voltar atrás custa caro. Muito caro.

O eleitor pode até tolerar um erro político. O que normalmente não tolera é a sensação de que está sendo enganado. Quando uma narrativa muda em poucas horas, abre-se espaço para adversários explorarem a ideia de contradição, ocultação e fragilidade.

E esse dano não se limita ao público externo.

Toda pré-campanha presidencial depende da construção de confiança junto a empresários, partidos aliados, lideranças regionais, influenciadores políticos e setores estratégicos do mercado eleitoral. Quando uma crise é administrada de forma errática, o efeito imediato costuma ser o aumento da desconfiança dentro do próprio campo político.

A pergunta que inevitavelmente surge nos bastidores é simples: “se isso apareceu agora, o que mais pode surgir depois?”

Esse tipo de dúvida produz um efeito corrosivo em campanhas competitivas. Parceiros passam a atuar com mais cautela. Aliados reduzem exposição. Investidores políticos evitam movimentos arriscados. E adversários encontram uma oportunidade perfeita para vender a imagem de instabilidade.

O episódio chama atenção justamente porque não se trata de um político inexperiente ou isolado. Flávio Bolsonaro atua no centro do debate nacional, possui forte capital político, estrutura partidária robusta, acesso a recursos vultosos do fundo partidário e é assessorado por profissionais altamente qualificados. Como pré-candidato à Presidência, espera-se um nível elevado de preparo estratégico e gestão de crise.

Por isso o impacto do caso é ainda maior.

Em campanhas de alto nível, improviso é luxo que ninguém pode se permitir. E quando a comunicação falha no momento mais crítico, o prejuízo raramente fica restrito a um ciclo de notícias. Muitas vezes, ele contamina a percepção de segurança política da candidatura inteira.

No fim das contas, crises não destroem candidaturas apenas pelo fato que revelam. Elas destroem pela maneira como são conduzidas.

Levi Menezes é jornalista.

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