O reflorestamento visa contribuir para a recuperação de áreas da comunidade afetadas por queimadas em 2025 e reforça o protagonismo das mulheres quilombolas na gestão territorial. Foto: Coletivo Meninas do Quilombo, Oeiras do Pará – Crédito: Vitória Leona

A Comunidade Quilombola de São Bernardo, localizada no município de Oeiras do Pará, recebeu, no último final de semana, um mutirão voltado ao fortalecimento das ações de sustentabilidade, reflorestamento comunitário e segurança alimentar no território.

A ação faz parte de um projeto de reflorestamento comunitário que já foi feito por outros coletivos de mulheres em Portel, Breves e Melgaço e conta com a realização do Observatório do Marajó, em parceria agora com o Coletivo de Mulheres Meninas do Quilombo, do município de Oeiras, reunindo moradores, famílias da comunidade e integrantes do coletivo em uma mobilização coletiva de cuidado com o território e recuperação ambiental.

Durante os três dias de atividades, o mutirão prestou assistência e apoio direto a 13 mulheres e suas respectivas famílias da comunidade, com foco no plantio de espécies frutíferas, nativas e essências florestais. Ao todo, serão plantadas 08 áreas, contribuindo para a recuperação da vegetação local, para o fortalecimento das práticas agroecológicas da comunidade e o empoderamento feminino. As áreas receberam cerca de 1000 mudas no total, contemplando variedades de espécies, entre elas açaí, abacaxi, banana, café, e cítricos (limão, laranja e tangerina). A iniciativa busca ampliar a produção sustentável, fortalecer a autonomia alimentar das famílias e incentivar ações de preservação ambiental conduzidas pela própria comunidade.

O mutirão também destaca o protagonismo das mulheres quilombolas na organização comunitária e nas estratégias de proteção do território. As atividades envolvem diferentes gerações das famílias da comunidade, promovendo troca de conhecimentos tradicionais, trabalho coletivo e fortalecimento dos vínculos comunitários. Dona Jacirene, representante do Coletivo Meninas do Quilombo, destaca a importância do projeto não só para o meio ambiente, mas para o fortalecimento do protagonismo e a independência financeira das mulheres:

“Sabemos que o que vamos colher vai servir tanto para se alimentar, quanto para melhorar uma renda financeira de cada família, cada mulher vai se sentir, eu digo, mais empoderada de saber que vai ter uma colheita de alguma coisa que ela vai estar ali produzindo, que é produção dela, que ela vai estar vendendo e que ela vai ter uma autonomia de compra e venda de acordo com aquilo que cada uma vai colher.”

Ediane Lima, umas das gestora do projeto, além de reforçar a contribuição da ação para a renda, enfatiza a importância do reflorestamento através de sistemas agroflorestais para a mitigação e adaptação climática: “Os Safs são soluções baseadas na natureza eficazes, viáveis para mitigar e adaptar os efeitos das mudanças climáticas, seja pela sua comprovada eficiência na recuperação de áreas degradadas, como também pela restauração de florestas nativas. Sem contar que nesses sistemas diferente dos monocultivos é possível produzir alimentos diversos, contribuindo para a segurança alimentar das famílias e com o aumento de suas rendas.”

Entre 2023 a 2025, o município de Oeiras registrou 859 focos de queimadas, segundo dados do INPE, sendo um dos municípios com elevado índice de queimadas no Marajó. As consequências das queimadas para as comunidades afetam desde sua capacidade de combate aos focos à perda de plantações que garantem renda e segurança alimentar. Daí a importância de fortalecer a capacidade de recuperação das áreas afetadas pelo fogo, garantindo uma gestão territorial pelas próprias comunidades, onde estas consigam monitorar seus plantios e identificar o que melhor funciona para seu território através das experiências e trocas de práticas e saberes entre coletivos de diferentes municípios e através das formações ofertadas pelo projeto.

Segundo o Observatório do Marajó, a iniciativa faz parte de um conjunto de ações voltadas à promoção da justiça climática, recuperação ambiental e valorização dos territórios tradicionais na região amazônica marajoara.

O Observatório do Marajó é uma organização da sociedade civil, formada por lideranças de comunidades tradicionais da região e ativistas socioambientais, para fortalecer a agenda dos territórios no ciclo de criação, monitoramento e avaliação das políticas públicas. Na COP30, a organização levou lideranças para apresentar e entregar documentos que mostram caminhos propostos pelas comunidades para o contexto climático atual.

A diretora executiva da organização, Valma Teles, liderança ribeirinha de Portel, reforça que “na ponta, as comunidades estão lidando com a emergência climática usando seus conhecimentos tradicionais e práticas ancestrais para chamar atenção para soluções baseadas na natureza que precisam de financiamento público e escala. O dinheiro do Estado não pode priorizar o agronegócio do latifundiário, muitas vezes grileiro, e esvaziar as comunidades de recursos para fazerem a gestão territorial”.

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