Jaques Wagner – Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado
As relações perigosas de Jaques Wagner com o escândalo do Master desafia campanha de Lula em um momento crítico
Por Aldenor Junior
Até a estátua da Justiça que domina a ampla Praça dos Três Poderes, em Brasília, sabia que era muito provável a ampliação da chamada Operação Compliance Zero em direção às hostes petistas, especialmente na enrolada seção baiana da legenda.
Há muito se sabe da estreita e pouco defensável relação da cúpula do PT baiano com uma figura-chave no escândalo, o tal sócio de Daniel Vorcaro, Augusto Lima, dono do CredCesta, entre outras empresas no setor financeiro. O que não havia sido revelado era a extensão dessa, digamos assim, amizade entre o banqueiro e uma liderança tão próxima de Lula.
Os dados disponibilizados pela PF são graves e exigem pronta resposta. Óbvio que não se trata de um relacionamento privado, sem sobreposição com a esfera pública e governamental.
Até uma criança de 9 anos duvidaria de tantos milhões drenados para a família do senador petista sem que houvesse a ultrapassagem de limites éticos. Vamos combinar que o modus operandi de Lima no trato com seu “amigo” Wagner parece ser da mesma natureza da compra de prestígio e de acesso privilegiado que Vorcaro montou com meia República, arrastando para o centro do escândalo cabeças coroadas de todos os Poderes e matizes políticos.
Contudo, cabe ter atenção a um ponto fundamental: ainda que figuras da esquerda ou da centro-esquerda tenham se deixado capturar, o Master é uma treta da direita e da extrema
-direita, com destaque evidente para o papel vital do Centrão e da família Bolsonaro.
Efeito Orlof
“Eu sou você amanhã”. Quem tem mais de 50 certamente lembrará do bordão publicitário que acabou virando uma máxima na política e na economia.
Por isso, Jaques Wagner não pode alegar desconhecinento e surpresa com a visita dos policiais ontem (19) em sua residência em Brasília. Pior: deu de bandeja uma imagem impactante para ilustrar todas as capas de jornais e alimentar a narrativa oportunista da direita e do bolsonarismo, que ganhou a foto da mesa repleta de euros e dolares, apreendidos em endereços de Wagner, para vitaminar a ligação do PT com o tema corrupção.
Tamanho descuido depõe contra Wagner, pois era evidente que ele era a bola da vez, após a operação da PF bater na porta de Ciro Nogueira, o mais graduado líder do Centrão alvejado até agora, e logo depois da bomba que explodiu no colo da linhagem do ex-presidente e atual presidiário, Jair Bolsonaro, com as revelações da dinheirama drenada dos cofres criminosos do Master para o tal filme Dark Horse.
Agora, as consequências estão por todo lado, sendo ainda imponderável definir o grau de comprometimento e os prejuízos reais à campanha presidencial de Lula, que nas últimas semanas ensaiara uma recuperação de imagem e uma retomada de iniciativa, na esteira da crise na pré-campanha de Flávio Bolsonaro, justamente por estar afundado na lama do Master.
De qualquer forma, as primeiras reações do PT e do governo foram claudicantes e confusas, para dizer o mínimo. Isso não significa condenar Wagner por antecipação, mas está claro que precisa se afastar da liderança do governo a menos que queira levar o presidente para o provável fundo do poço se novas revelações demonstrarem que a atuação do senador petista foi além de um já condenável trágico de influência, aliás, regiamente recompensado.
Há sinais contraditórios vindos do Planalto e o tempo não é um aliado neste caso.
Aguarde-se para os próximos dias uma resposta firme do presidente, recolocando os pingos nos is: quem errou, que pague. Simples, assim.
Esse é o único caminho possível e qualquer vacilação pode trazer prejuízos gigantescos, recolocando o bolsonarismo numa posição de retomar a ofensiva, no momento em que se mostra combalido e perdendo substância.
Aldenor Junior é jornalista








