Foto: Unsplash/Marek Piwnicki

Por Edmilson Brito Rodrigues

Dois projetos de futuro foram recentemente publicados. Ambos são expressão de esperança e de utopia realizável. O primeiro é o “Um manifesto contra o mito do ‘crescimento’”, assinado por grandes economistas representando centenas de pensadores acadêmicos ou populares, entre os quais sobressaem nomes como Joseph Stiglitz, Thomas Piketty e Jason Schutter. O segundo é de Leonardo Boff.

Diz o “Manifesto” (STIGLITZ et all, 2026) que o mundo nunca foi tão rico e, contudo, ainda mantém quase um bilhão de pessoas humanas em situação de extrema pobreza, sem condições de comprar comida, sem moradia e sem acesso a serviços básicos. Enquanto isso, poucos acumulam riqueza e poder sem precedentes. Além disso, secas, incêndios, inundações e ondas de calor comprovam que o padrão econômico está destruindo as condições de vida na Terra. “Vivemos em uma era de escassez fabricada”! Escassez de cidadania, escassez de equilíbrio ecológico.

As crises social e ambiental não são crises isoladas, mas sintomas de um modelo econômico socialmente falido e ecologicamente insustentável. A pobreza e a desigualdade são consequências previsíveis de escolhas políticas. “Fundamentalmente, se os governos podem criar pobreza, também podem erradicá-la. O “[…] caminho dominante para o crescimento – baseado na extração de recursos, mão de obra barata e submissa, dependência de exportações e endividamento crescente (acrescente-se equilíbrio fiscal que reduz despesas sociais necessárias com frouxidão total quanto aos gastos com o capital financeiro) – ampliou a desigualdade e degradou o meio ambiente.”, deve e pode ser superado. A reestruturação econômica necessária e imprescindível deve garantir os direitos e o bem-estar coletivo, respeitando os limites planetários. “Os direitos humanos não são uma reflexão tardia; são o princípio organizador de como deve-se medir o progresso, definir prioridades e resolver conflitos.”. Como também sonhava Thiago de Mello:

Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura
(MELLO, O Estatuto do Homem, Capítulo IX, 1964)

A despeito da hegemonia neoliberal, os autores destacam que não estamos partindo do zero, que há em todo o mundo lutas indígenas, feministas, sindicais e por justiça climática. Estes estão construindo futuros alternativos à racionalidade do lucro, projetos enraizados no cuidado coletivo e nos direitos territoriais (ancestrais). Além das resistências populares, há coalizões de Estados promovendo novas formas de governança econômica global; há governos experimentando estratégias de combate à pobreza; emergem assembleias de cidadãos e construção de riqueza comunitária. Enfim, busca-se políticas e indicadores socioambientais que vão “além do PIB”.

O “manifesto” afirma que “a pobreza é fabricada”. Logo, o padrão econômico que a produz pode e deve ser desmantelado e substituído. Apresenta propostas concretas, “[…] respaldadas por perfis de políticas detalhados que explicitam evidências, etapas de implementação e exemplos do mundo real”. Por fim, conclama os líderes políticos em todos os níveis a utilizar essas propostas como base para pensar as mudanças, que devem ser construídas ouvindo os mais afetados e considerando como essencial o fim da pobreza, a redução das desigualdades, além da garantia efetiva dos direitos humanos, que deve ser parâmetro para a avaliação da política econômica.

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
(Mello, Idem, Artigo III, 1964)

Leonardo Boff (2026), por sua vez, insiste em sua bela e também poética teimosia em fertilizar o mundo com utopias e plantar a esperança capaz de florescer o sonho da Paz Perpétua – a Era Ecozoica. Sua ousadia se destaca haja vista que, ao afirmar sua utopia, o faz em um momento em que os principais estudiosos da geologia no mundo também afirmam que o planeta passa por uma mudança de era.

Em síntese afirmam que no Holoceno, era iniciada há cerca de 11.700 anos, as atividades humanas alcançaram capacidade de rivalizar com as grandes forças da natureza empurrando a Terra para um futuro incógnito. Afirmam ainda que um volume avassalador de evidências permite afirmar que uma nova fase na história do sistema terrestre começou: o antropoceno. Nela, a humanidade talvez não sobreviva, haja vista que as mudanças iniciadas em meados do século XX são tão profundas quanto irreversíveis em qualquer escala de tempo humana.

Esse diagnóstico perverso deve, contudo, iluminar os caminhos que cientistas e ecossocialistas devem trilhar (ANGUS, Ian, 2025). Mesmo que ainda haja dissensos acerca da chegada ao antropoceno, os debates expressam uma mesma preocupação, qual seja, mudar a história do mundo para que a história humana possa prosseguir, o que é, também a utopia de Boff.

Leonardo Boff inicia dizendo que vive-se tempos distópicos no qual para muitas pessoas o “horizonte parece ter desaparecido”. A crise planetária é tão grave quanto a possibilidade de significar o fim da espécie humana. No entanto, observa Boff, a Terra teria passado por 15 (quinze) grandes dizimações e, apesar disso, a vida sempre sobreviveu. Isso autoriza afirmar a esperança de que a vida vencerá mais uma vez, “não sem penosos sacrifícios a serem pagos em vidas humanas e da natureza”. A ousadia de Boff culmina na crença de que o planeta está entrando em uma nova era geológica – Era Ecozoica -, somando-se à certeza do cosmólogo Brian Swimme (cf. The Hidden Heart of the Cosmos: Humanity and the New Story, 1996), cuja tese é que na nova era o ecológico ganhará centralidade.
Para Boff:

“A tecnociência, a própria IA e todos os demais saberes estariam a serviço do cuidado desse dom sagrado que o universo ou Deus nos têm galardoado: o planeta vivo, a Terra, Grande Mãe, Pachamama e Gaia com todos os seres que ela gerou e nela vivem e convivem”.

Na Era Ecozoica todos os humanos se sentirão partes e guardiões da natureza, irmãos e irmãs entre si e com os demais seres vivos, mesmo porque compartilhamos o mesmo código genético de base. A vida se dará em sinergia com o todo. Aliás, como declamara Thiago de Melo:

Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
Como um menino confia em outro menino.
(MELLO, Idem, Artigo IV)

E profetiza Boff: “O reino das necessidades teria ficado para trás e todos gozaríamos dos benefícios do reino da liberdade.”.

Assim como no manifesto dos economistas, Boff sabe que não se parte do zero para construir essa utopia. “Esfera da paz, essa utopia está nos arquétipos mais ancestrais de todos os povos, desde a Terra sem Males dos povos originários até o novo Céu e a nova Terra das Escrituras judaico-cristãs”. A história, observa, não é linear e, muitas vezes surpreende com o inesperado e até o improvável, como Edgar Morin afirmava. Ela dá saltos quânticos. Há 3,4 bilhões de anos teria surgido de um oceano a primeira célula viva, a “mãe de todos os viventes”. Esse arquiarquétipo poderá irromper para criar a sempre sonhada, e ansiada há alguns milhões de anos, esfera da paz.

Na Era Ecozoica sonhada, profetiza Boff, não se falaria mais de paz, haja vista que ela estaria contida “no ar que respiramos, no alimento que nos sustenta e na realização do sonho enfim realizado”. Essa é a utopia necessária para que a humanidade vença o medo e o desespero, que são funcionais ao sistema do capital e sua destrutiva racionalidade do lucro, e, assim, dar lugar à esperança, que transforma o impossível em possibilidade.

Edmilson Brito Rodrigues é Professor doutor da UFRA

Referências
ANGUS, Ian. Quem tenta cancelar o Antropoceno? OutrasPalavras – Terra e Antropoceno. Disponível em https://outraspalavras.net/terraeantropoceno/quem-tenta-cancelar-antropoceno/. Publicado 10/10/2025 às 19:42 – Atualizado 23/12/2025 às 16:46
BOFF, Leonardo. O Sonho da Paz Perpétua: a era ecozoica. Revista Libertda/ICL. Ediçã nº 42. Disponível em: https://revistaliberta.com.br/digital/. Publicada em 04 de julho de 2026. As 05:00 horas.
MELLO, Thiago. O Estatuto do Homem., Santiago do Chile, abril de 1964. Disponível em: https://armazemdetexto.blogspot.com/2018/10/poema-os-estatutos-do-homem-thiago-de.html. Acesso em 04. 07.2026.
STIGLITZ, Joseph, PIKETTY, Thomas, GHOSH, Jayati, RAWORTH, Kate, HICKEL, Jason e SCHUTTER, Oliver de (Tradução: Antonio Martins). Um manifesto contra o mito do “crescimento” Boletim Outras Palavras – Mercado x Democracia. Disponível em: https://outraspalavras.net/mercadovsdemocracia/um-manifesto-contra-o-mito-do-crescimento/. Publicado 02/07/2026 às 19:33 – Atualizado 02/07/2026 às 19:38

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