Novo Progresso, no Sudoeste paraense, virou o epicentro de uma guerra aberta pelos destinos da Amazônia. Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real
Por Aldenor Junior
Se um observador desavisado tentar desvendar a política a partir das declarações e iniciativas de políticos paraenses, na última semana, sairá convencido que Novo Progresso, município de apenas 37054 habitantes e minguados 25400 eleitores, teria se convertido no epicentro da disputa que definirá os vencedores no pleito de 4 de outubro.
Os dois principais grupos que se digladiam pelo controle da máquina do governo – o clã Barbalho e sua incumbente Hana Ghassam e a malta da extrema-direita que incensou o ex-prefeito de Ananindeua, Daniel Santos – só falaram disso, reverberando os conflitos entre a fiscalização ambiental a cargo do ICMBio e setores abertamente vinculados (e manipulados) pela grilagem de terras públicas e pelo garimpos ilegal que dominam amplas áreas da Floresta Nacional do Jamanxim, um mosaico de mais de 1,3 milhão de hectares há mais de duas décadas passando por invasões sistemáticas.
Mas, o que une todo esse pessoal – que costuma se apresentar ao distinto público como se fossem inimigos inconciliáveis – é a defesa – aberta e descarada – do avanço do crime organizado sobre a floresta, ameaçando uma das mais relevantes áreas protegidas da Amazônia brasileira.
Sim, é isso mesmo, sem meias palavras. Defendem que o crime ambiental valha a pena e que a lei seja relativizada para beneficiar que afronta a Constituição.
É óbvio que existe algum refinamento na narrativa empregada. Ficaria feio, para dizer o mínimo, escancarar o apoio aos grileiros que invadem o território, cujo status legal
Impede qualquer atividade produtiva, para derrubar a floresta (atenção: roubar na mão grande milhares de toras de madeiras nobres) para, ato contínuo, instalar pastos e introduzir rebanhos sem nenhum controle sanitário ou de qualquer ordem. Verdadeiros rebanhos fantasmas para lavar a fortuna de um punhado que certamente não estão comendo poeira nas vicinais que rasgam aquele território.
Para isso, se utilizam de um segmento formado por pessoas de baixa renda, convertido em massa de manobra para que a terra seja “amansada” e o caminho aberto para que os verdadeiros autores intelectuais do crime possam adentrar com seus investimentos ilegais.
Na linha de frente dos confrontos não se verá prefeitos, pecuaristas ou parlamentares se expondo a eventuais agravos diante da presença ostensiva – mesmo que episódica – de forças federais que buscam, com muita dificuldade, impor o império da lei.
Quem acaba sofrendo como bucha de canhão são esses despossuídos e suas famílias, como parte inconsciente de uma engrenagem que só produz riqueza e poder para um grupo seleto, arrogante, irresponsável e disposto a tudo para que seus interesses se perpetuem.
Vale tudo
O ex-governador Helder Barbalho (MDB), em maio passado, rasgou sua fantasia de “ambientalista sustentável” para em pessoa acompanhar o circo horrendo no plenário da Câmara Federal que por meio de votação simbólica – não há nada mais escrachado do que isso, valha-me Deus – aprovou o Projeto de Lei 2486/26 que reduziu em 486 mil hectares a Flona do Jamanxim. A seu lado, todo faceiro, o prefeito de Novo Progresso, Gelson Dill, do MDB, um criminoso ambiental conhecido das autoridades federais, que buscam há anos ressarcimento de R$ 52 milhões por algumas das atividades ilícitas que o mandatário mantém na área da Flona.
Pelo lado da extrema-direita, os exemplos no mesmo sentido se avolumam. Não bastasse o pré-candidato Daniel Santos ter mobilizado um de seus aviões (fala-se em uma frota que teria a sua disposição) para se passar por “repórter por um dia”, entrevistando feridos no alegado conflito com a fiscalização do governo federal. Tudo, evidentemente, para reforçar a narrativa de que estaríamos diante de uma ofensiva contra o “produtor rural”, que age de boa fé e não consegue trabalhar diante da repressão do IBAMA e demais órgãos de controle.
Mas não ficou só nisso: Zequinha Marinho, do Podemos, resolveu propor uma CPMI para investigar os excessos da ação federal na região, em mais um ato da escalada legislativa em favor de quem estupra diariamente a lei e o mínimo bom senso quando se trata da preservação da maior floresta tropical do planeta.
Em resumo, todo esse pessoal perdeu o mínimo de decoro, se é tenha tido porventura. É um vale tudo indecente, uma busca ensandecida pelo voto, é mais ainda, pela imposição de um modelo que mescla a apologia ao crime com doses cavalares se mau-caratismo político.
Por enquanto, o grosso da população paraense segue alheia a esse teatro de operações. Não deveria, pois é ali, na pequena Novo Progresso que o futuro do Pará e da Amazônia brasileira está sendo jogado.
Aldenor Junior é jornalista.








