Arte contemporânea, ancestralidade, espiritualidade e saberes tradicionais amazônicos. Foto: Luciana Medeiros.
O artista visual paraense Werne Souza apresenta sua nova exposição “Arte em Terra Queimada”, com abertura na próxima quinta-feira, 20 de agosto, às 19h, na Galeria Ruy Meira, da Casa das Artes, em Belém, onde permanecerá com visitação até 12 de setembro.
Com curadoria de Nina Matos, reúne 30 esculturas das séries Operárias e Mulheres de Fé, produzidas em cerâmica de alta temperatura, resultado de meses de pesquisa, experimentação e aprendizagem. O projeto foi contemplado pelo Edital de Criação Artes Visuais – Sistema Nacional de Cultura, PNAB/Fundação Cultural do Pará e Secult-PA – Governo do Pará – Ministério da Cultura e Governo Federal.
O prêmio possibilitou ao artista desenvolver uma pesquisa de longa duração, envolvendo criação, experimentação de materiais, produção de moldes, esmaltação e sucessivas queimas em alta temperatura. Mais do que resultar em um conjunto de obras inéditas, o projeto marca uma nova etapa em sua trajetória artística, reunindo as séries Operárias e Mulheres de Fé em uma mesma exposição.
A escolha técnica nasceu de uma inquietação antiga do artista: alcançar maior resistência, densidade e permanência para as peças. “Sempre quis um resultado mais resistente, mais próximo da pedra. Procurava uma densidade que o barro, da forma como eu trabalhava antes, não alcançava”, conta Werne, que ao longo de mais de três décadas de produção, transitou pela pintura, aquarela, desenho, construção de objetos e escultura.
Seu contato com a argila, especificamente, começou há aproximadamente 25 anos, ainda de maneira experimental. Foi a partir da pesquisa iniciada com Operárias que a cerâmica passou a ocupar um lugar central em sua produção artística.
A cerâmica de alta temperatura, que modifica a resistência e superfícies, tonalidades e texturas da cerâmica, acabou gerando novos processos. Nas obras apresentadas na exposição, o barro ganha aspectos escuros, profundos e, em alguns casos, quase metálicos.
Embora dialoguem entre si, as duas séries não estabelecem uma relação de continuidade linear, mas integram um mesmo percurso de investigação sobre o universo feminino, desenvolvido por Werne ao longo dos últimos anos. “São mulheres ligadas à fé, à memória, à espiritualidade e a uma força que está muito próxima de nós. São mulheres que reconhecemos em nossas famílias e na nossa convivência”, afirma Werne Souza.
A parceria com Levy Cardoso
Para desenvolver a pesquisa, Werne estabeleceu uma parceria com o artista e mestre ceramista Levy Cardoso, que trabalha em Icoaraci, distrito de Belém historicamente ligado à produção cerâmica no Pará.
Levy contribuiu com seu conhecimento sobre composição das massas cerâmicas, comportamento das argilas, esmaltação, resistência e controle dos fornos em altas temperaturas. A colaboração tornou possível um processo que exigiu testes, construção de formas e sucessivas etapas de queima.
“Trabalhar escultura em cerâmica de alta temperatura é muito complicado. Exige conhecimento, estrutura, espaço e domínio da queima. Eu procurei o Levy justamente porque ele conhece profundamente essa parte do processo. É uma parceria sem a qual esse projeto não seria possível”, afirma o artista.
O desenvolvimento das peças começou pela modelagem das esculturas originais. A partir delas, foram produzidas formas que receberam novas composições de argila, pesquisadas para suportar temperaturas elevadas sem perder a integridade estrutural. Parte das esculturas passou por diferentes queimas, em um processo no qual pequenas variações de matéria, tempo e calor poderiam alterar completamente o resultado.
Werne também precisou aprender procedimentos que ainda não faziam parte de sua prática, como a construção e a montagem das formas. “Nunca tinha trabalhado dessa maneira. A forma também exige construção, pesquisa e observação. Durante o trabalho, você vai memorizando a posição das peças e entendendo que aquilo também é uma criação. O molde é uma escultura que gera outra escultura”, observa.
O processo, segundo ele, foi atravessado por dificuldades, tentativas e descobertas. “Foi um trabalho longo, complicado e trabalhoso. Exigiu muita observação e muita pesquisa. O resultado depende de muitas etapas. Mas, quando a peça sai do forno, o próprio resultado me incentiva a continuar.”
Das Operárias às Mulheres de Fé
Para a curadora Nina Matos, Arte em Terra Queimada evidencia diferentes momentos de uma mesma investigação artística desenvolvida por Werne Souza em torno do universo feminino. As séries Operárias e Mulheres de Fé revelam questões sociais, políticas, espirituais e ancestrais presentes na produção do artista.
“O trabalho reúne figuras femininas que reconhecemos em nossas próprias histórias: as avós, as mães, as mulheres da família, as mães de terreiro e as benzedeiras tradicionais de nossa região.”, diz Nina.
A escolha da cerâmica como suporte acrescenta outra camada de sentido à exposição. A curadoria relaciona o trabalho às tradições tecnológicas desenvolvidas durante séculos por mulheres indígenas amazônicas, responsáveis pela seleção das argilas, modelagem, queima e pintura de peças ligadas à vida cotidiana, aos rituais, à memória e à cosmologia.
A curadora observa ainda que a exposição contribui para valorizar uma prática que enfrenta dificuldades de continuidade, tanto pela falta de incentivo quanto pela escassez de matéria-prima e pelo afastamento das novas gerações dos processos tradicionais.
“É um projeto de fôlego, maestria e sensibilidade que comove já em sua feitura. Ao mesmo tempo, chama atenção para uma tradição tecnológica amazônica que precisa ser conhecida, preservada e fortalecida”, destaca.
Questões sociais atravessam a obra
Werne Souza é artista visual paraense com mais de três décadas de trajetória dedicadas às artes visuais. Ao longo da carreira, desenvolveu uma produção marcada pela experimentação entre pintura, aquarela, desenho, objetos, instalações e escultura, sempre orientada pelo rigor técnico e pelo interesse em questões sociais, políticas e humanas.
A presença de temas sociais o acompanha desde os primeiros anos de sua trajetória. Em 1993, quando recebeu um prêmio na segunda edição do Salão Paraense de Arte Contemporânea, a crítica política já aparecia no conjunto de pinturas apresentado pelo artista.
Desde então, ele construiu uma produção marcada pela diversidade de linguagens e pelo interesse nas tensões sociais e humanas. “Eu não começo uma obra apenas pela técnica. Há sempre uma preocupação com o que aquela figura carrega e com o que ela pode provocar em quem olha”, define Werne.
Acessibilidade
Arte em Terra Queimada contará também com recursos de acessibilidade, incluindo conteúdo em braille e ação de audiodescrição. A programação específica da audiodescrição, com data e horário, será divulgada posteriormente.
Serviço
Exposição: Arte em Terra Queimada
Artista: Werne Souza
Curadoria: Nina Matos
Local: Galeria Ruy Meira – Casa das Artes
Abertura: 20 de agosto de 2026, às 19h
Visitação: de 20 de agosto a 12 de setembro de 2026
Endereço: Praça Justo Chermont, nº 236, bairro de Nazaré, Belém (PA)
Acessibilidade: conteúdo em braille e ação de audiodescrição, com programação a ser divulgada.
Projeto contemplado pelo Edital de Criação Artes Visuais – PNAB/Fundação Cultural do Pará – Secult-PA – Governo do Pará. Realização: SNC – Sistema Nacional de Cultura Ministério da Cultura, Governo Federal.








