Professora emérita da UFPA, intelectual, artista e uma das fundadoras do Cedenpa, Zélia dedicou sua vida ao enfrentamento do racismo, à defesa das ações afirmativas e dos direitos da população negra e quilombola. Crédito: Alexandre de Moraes
Morreu nesta terça-feira (8) a professora emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA), pesquisadora, artista e ativista Zélia Amador de Deus, uma das mais importantes referências da luta contra o racismo no Pará e no Brasil.
Zélia tem uma trajetória de mais de cinco décadas marcada pela organização do movimento negro, pela defesa das comunidades quilombolas, pela transformação da universidade pública em um espaço mais diverso e acessível à população negra e pela defesa da democracia.
Em uma das frases que sintetizam seu pensamento, afirmou: “Enquanto houver racismo, não haverá democracia. O racismo é o que está na origem de todas as desigualdades existentes no país.”
Zélia conheceu o racismo desde a infância. Nascida no Marajó e oriunda de uma família negra e pobre, relatava ter sofrido discriminação ainda menina, inclusive dentro da escola. “Eu nasci negra, então desde cedo eu percebi o racismo na própria pele”, contou em entrevista a O Liberal.
Zelia também defendia que raça e gênero não poderiam ser tratados como questões separadas em uma sociedade atravessada simultaneamente pelo racismo e pelo patriarcado.
Uma das fundadoras do Cedenpa
Em 1980, Zélia esteve entre os fundadores do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), entidade que se tornaria uma das principais referências da organização do movimento negro na Amazônia.
Por meio do Cedenpa, atuou não apenas contra a discriminação racial, mas também na defesa do reconhecimento e da titulação dos territórios quilombolas do Pará. Nas décadas de 1980 e 1990, a organização teve participação importante na mobilização das comunidades quilombolas e na construção das políticas de reconhecimento de seus direitos territoriais.
Zélia teve atuação decisiva na defesa das ações afirmativas e das cotas raciais no ensino superior, participando das articulações que ajudaram a transformar uma universidade historicamente branca e elitizada em um espaço progressivamente mais representativo da sociedade amazônica. Também participou da criação do Grupo de Estudos Afro-Amazônicos (GEAM) da UFPA.
Em 2019, recebeu o título de Professora Emérita da UFPA, reconhecimento a uma trajetória acadêmica e política que deixou marcas profundas na instituição.
Zélia se aposentou da universidade em 2024, após mais de quatro décadas de docência, pesquisa e gestão acadêmica, mas permaneceu como uma das principais referências intelectuais da instituição, do movimento negro e democrático.








