Presidente rejeita interferência estrangeira nas eleições, cobra cooperação contra o crime organizado e afirma que o país não vai terceirizar a proteção de sua população Foto: Ricardo Stuckert
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou a soberania brasileira nesta terça-feira, 22, na abertura da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, e declarou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Ao denunciar a ingerência estrangeira em processos eleitorais e as tentativas de subordinação da América Latina, Lula afirmou que o país busca parceiros para o desenvolvimento e não vai transferir a outras nações a responsabilidade de proteger suas fronteiras e sua população.
“Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para maior integração entre vizinhos”, afirmou.
A declaração ocorreu em um trecho no qual o presidente abordou a proximidade da América Latina e do Caribe com a maior potência militar do mundo, em um cenário de intensificação das pretensões de domínio sobre a região. A fala também se insere no contexto das declarações do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que voltou a tratar a América Latina como quintal dos Estados Unidos.
Lula lembrou que os países latino-americanos conheceram os horrores das ditaduras e percorreram um longo caminho para restabelecer a vontade popular. Para o presidente, essas conquistas estão novamente ameaçadas por pressões externas e pela disputa por recursos estratégicos.
“A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos”, declarou.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas”
Ao tratar da segurança pública, Lula afirmou que o Brasil não subestima o crime organizado e está preparado para enfrentar as organizações que aterrorizam as comunidades. O presidente mencionou o sofrimento de trabalhadores vítimas de roubos, de mães que perdem seus filhos e de policiais que não retornam para casa.
“As pessoas estão cansadas da violência. Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo”, declarou.
Lula cobrou uma cooperação internacional voltada a interromper o abastecimento financeiro e o acesso a armamentos das organizações criminosas. A prioridade apresentada pelo presidente é atingir as estruturas que sustentam o crime, inclusive fora do território brasileiro.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”, afirmou.
Nesse contexto, Lula citou a proposta que entregou pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e destacou o interesse brasileiro em combater a lavagem de dinheiro praticada por criminosos brasileiros no exterior.
O documento foi apresentado em maio, em Washington, com medidas de enfrentamento à lavagem de dinheiro, compartilhamento de inteligência e combate ao tráfico de drogas. Em 16 de setembro, ao rebater críticas norte-americanas à atuação brasileira contra as facções, o Ministério da Justiça informou que ainda aguardava uma resposta do governo dos Estados Unidos à proposta.
Combate aos magnatas do crime
O presidente também apresentou iniciativas para superar a falta de coordenação no enfrentamento às organizações criminosas. Segundo Lula, durante muito tempo os estados brasileiros atuaram isoladamente, abrindo espaço para a expansão do crime.
Como exemplo de mudança, citou a criação, em Manaus, do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, que reúne autoridades de segurança pública dos nove países amazônicos. Também destacou a realização, em 2025, daquela que classificou como a maior operação contra o crime organizado da história do Brasil.
“Batemos recorde de apreensão de drogas e de bens e recursos ilícitos. Estamos enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os magnatas do crime”, afirmou.
Lula mencionou ainda a Lei Antifacção e ressaltou que a legislação impõe às organizações criminosas penas superiores às previstas para o terrorismo. Ao encerrar esse trecho do discurso, associou o enfrentamento ao crime organizado ao combate à corrupção e assegurou que não haverá proteção a quem violar a lei.
“Crime organizado e corrupção andam juntos. O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer. Ninguém está acima da lei”.
Eleições livres e respeito à vontade popular
A defesa da soberania também marcou a mensagem de Lula sobre as eleições brasileiras de 4 de outubro. O presidente afirmou que o país terá uma disputa transparente e competitiva, com ampla liberdade de expressão para todos os candidatos, e advertiu contra o uso dessa liberdade para favorecer interesses estrangeiros contrários ao Brasil.
“Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país. Não subestimamos o desafio das redes de desinformação que pretendem desvirtuar o debate público durante a campanha”, afirmou.
Lula ressaltou a solidez do sistema eleitoral brasileiro e o papel da sociedade e da imprensa na proteção do processo democrático. Segundo ele, a escolha dos brasileiros precisa ser respeitada tanto por atores nacionais quanto por forças externas.
“O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará desse caminho”.








