“É extremamente preocupante que um candidato à Presidência tenha mantido vínculo tão próximo, até pouco tempo atrás, com um miliciano condenado pelo Supremo pela morte de Marielle”. O Estado de São Paulo, editorial de 23/09/2026. Foto: reprodução

Por Elias Araujo

O Editorial do Estadão de 23 de setembro último, intitulado “Flávio e a sombra dos milicianos”, aponta o risco de que, se vitorioso o candidato da extrema-direita, milicianos ocupem cargos no futuro governo.

Ora, o “Milicianato I” — o governo de milicianos, militares e fundamentalistas do Bolsonaro pai — não deixa dúvidas sobre o que seria o “Milicianato II”.

A dúvida do editorial de um dos jornais das oligarquias brasileiras, portanto, é apenas retórica e uma ressalva para futuras desculpas, caso o apoio da mídia porta-voz da Faria Lima e do Agro venha a resultar em um governo autoritário, corrupto e desastroso como foi o primeiro governo miliciano.

Mas essa dúvida, como pretexto para desculpas esfarrapadas, a exemplo das que foram dadas pelo apoio ao golpe militar de 1964, não colará entre os eleitores da mesma vertente ditatorial e golpista que agora não se envergonha mais de pedir intervenção estrangeira, frustrada que foi ao pedir a intervenção militar no 8 de janeiro de 2023.

E não é demais perguntar por que o Estadão — que, junto com a Folha, o Globo e Metrópoles, depois de um mês de ataques diários contra Lula, sendo caixa de ressonância da Lava-Jato 2, de André Mendonça, com vazamentos seletivos contra Fábio Luís, ao mesmo tempo que protegia Tariflávio do escândalo do banco Master — vem agora tentar plantar dúvidas entre aqueles que essa própria mídia alimentou com ódio e mentiras?

Não, senhores donos do Estadão, da Folha e da Globo, vocês não conseguirão enganar nem a esquerda, nem a extrema-direita. Por quê? Afinal, em que se baseariam suas tentativas de plantar dúvidas como álibi para ajudar a eleger um dos chefes da máfia mais perigosa do país?

Só porque ele homenageou e condecorou policiais milicianos, protegeu o chefe do escritório do crime, Capitão Adriano da Nóbrega, e empregou a mãe e a irmã do capitão em seu gabinete na ALERJ?!

Só porque ele e sua família compraram mais de 100 imóveis, 50 dos quais pagos em dinheiro vivo, não só com rachadinhas, mas também com a extorsão de comerciantes e com os “serviços vendidos” às populações das comunidades dominadas pelas milícias e pelo CV no Rio de Janeiro?!

Só porque seu pai deu apoio total e visitava no hospital o miliciano Lessa, quando este foi baleado numa das pernas, e foi morar, por mera coincidência, no condomínio Vivendas da Barra, onde a polícia encontrou mais de 100 fuzis?!

Só porque suas contas e as de sua mulher foram pagas durante anos por Queiroz, sempre em dinheiro em espécie, arrecadado das milícias e das rachadinhas?!

Só porque ele e seu pai eram amigos íntimos dos irmãos Brazão, os intermediários na contratação dos executores de Marielle Franco e Anderson Gomes?!

Só porque ele utilizou dinheiro público, por meio de emenda parlamentar, para uma ONG, a fim de concluir os pagamentos a um dos assassinos de Marielle Franco?!

Só porque ele usou sua fantástica loja de chocolates para fazer depósitos diários de valores iguais, com total superior ao das vendas de chocolates e com forma de pagamento absolutamente estranha às demais lojas da franquia?!

Só porque o Ministério Público do Rio de Janeiro o acusa, em processo, de peculato (roubo de dinheiro público)?!

Desculpe, Estadão, mas essa sua dúvida não vai colar entre os bons cristãos fundamentalistas (evangélicos e católicos) que fizeram de Bolsonaro e sua família a casa real ungida por Deus para vencer a “Guerra espiritual” do bem contra o mal no Brasil.

E a referência desses cristãos não é Cristo, que condenava os fariseus, a mentira e o ódio e dizia que o seu reino não era deste mundo, e que se fazia reconhecer no faminto, no preso, no sedento, no doente, no maltrapilho e no estrangeiro.

O ídolo dessa gente é Davi, aquele que podia cometer toda a sorte de crimes porque sempre era perdoado; aquele que pagou o dote de sua mulher com uma centena de prepúcios de filisteus que matou; aquele que mandou seu melhor e mais fiel general para a linha de frente de uma batalha suicida a fim de ficar com a mulher dele; aquele a quem o seu próprio Deus impediu de construir o Templo por ter muito sangue nas mãos.

Então, Estadão, desculpe, mas sua tentativa agora de semear dúvidas entre esses bons cristãos — não do Evangelho de Cristo, mas do Evangelho Davídico — não vai colar.

Vocês fizeram um bom trabalho. Como disse o profeta Silas Malafaia: “Deus escolhe o vil para confundir”.

Os eleitores e as eleitoras dos “ungidos e enviados” da família Bolsonaro não se deixarão abalar em sua fé, não importando os crimes de roubo, extorsão, assassinato e lavagem de dinheiro, nem os recursos roubados de aposentados e contribuintes para o Mastergate!

E vocês da mídia oligárquica ajudaram a fortalecer o trabalho feito pelas elites sacerdotais (de paletó e batina) feito nas missas e cultos do talibã “cristão” que difundiu e cultivou o ódio e a mentora em favor de autocratacias e plutocracias.

Não venham agora agora se esquivar e responsabilizar o eleitor que ajudaram a formar em anos de desinformação, dizendo que “Cada eleitor tem a liberdade assegurada pela Constituição para dar seu voto a qualquer candidato regularmente registrado na Justiça Eleitoral”, e que vocês não têm qualquer responsabilidade pelo que inocularam com o auxílio das Laja-Jatos, CIA/NSA, Mossad de Sérgio Moro e André Mendonça.

Não tenham a covardia de se esconder atrás de conselhos como “Mas que todos estejam cientes de que, dado o histórico, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República”.

Se tivermos o Micilianato II, vocês da mídia oligárquica que promoveram o golpe de 2016 e disseminaram o ódio contra as esquerdas têm grande responsabilidade não apenas pela eleição de um miliciano-mor, mas pela redução do Brasil à colônia dos EUA, com perda de todas as conquista civilizatórias, inclusive de nossa soberania.

A mídia oligárquica brasileira agiu e age para ganhar de qualquer maneira, quaisquer que sejam os resultados das eleições presidenciais: em caso de vitória de Lula, que seja por pequena margem e que se tenha um governo fraco, com um Congresso dominado pela extrema-direita, para que possa extorquir concessões.

Em caso de vitória do miliciano, age para que este adote o programa de Milei, mas garanta também os negócios dessa mesma mídia e de seus financiadores da Faria Lima e do agro escravocrata.

Elias Araújo – Graduado em História pela Universidade Federal do Pará. Consultor em Políticas Públicas.

Os artigos publicados na coluna “Opinião” não refletem necessariamente a posição do “Ponto de Pauta”. Os textos buscam estimular o debate sobre temas importantes para o país.

Deixe um comentário